25/01/2015

feral


eu tenho o cheiro do suor
do gozo
da saliva dos loucos

tenho o corpo
marcado de terra
pés calejados de fogo

carrego comigo
louvores e dores
de putas e anjos

sou fera
sou santo

clamo os nomes de deus
sigo os caprichos do diabo

sou solto no mundo
sem forma e sem cor 
querubim d'outros céus 
extraviado

não me arranque de meus descaminhos
não remova os meus desatinos:
eu sei que no fim
os rumos que sigo
são linhas certas
escritas
 por passos tortos.


22/01/2015

amicitia


a língua ferina, afiada, nociva
atravessa a ferida
e toca o osso:
um grito cortado escorrega
por trás dos molares.
estamos unidos 
atados por laços frágeis
pés cautelosos
dançando 
em piso caiado.

enfeito indiferenças
com palavras polidas
e clamo aos céus 
afeto que permita
tragar-te aos poucos 
dia após dia.


a substância dos dias



[pastosa escuridão: manhã. um som rompante - 5:30 - f. ainda está dormindo. levanto-me lento, silencioso, chão frio na rija sola dos pés, o osso sacolejando possuído. corpo quente, jato gelado, luz atravessa pupilas dormentes: cá estou, coisa amorfa, tudo em suspensão. os móveis ainda não acordaram, permanecem imersos em seu silêncio imaterial, olhos fechados, como estão sempre fechados os olhos das coisas, compensando as orelhas atentas - sempre. as paredes têm ouvidos: dito certo. estômago retorcido, ruidoso: vazio. rumo refeito dia após dia é roupa desbotada pelo constante uso. perde-se a sensibilidade dos detalhes, nada de novo se percebe nesse caminhar. ônibus. o constante vai-e-vem. momento de atentar. lá fora tudo continua como sempre foi, apesar de. o meu consolo é a indiferença do mundo, de ser parte de um todo - terrível seria se cada um se apercebesse das minhas dores; horrível, sim, se não fôssemos tão irrevogavelmente egoístas. eu gosto do egoísmo. eu gosto dos pequenos mal-estares que nos mantém tão vivos. destino alcançado. caos matutino. as coisas já são coisas a uma hora dessas. f. com certeza já acordou, deve estar até saindo de casa, deixando para trás como evidência a marca de batom rosa na borda do copo de café. sabe-se lá quantas horas até a hora chegar novamente. chego todo ausente, saio cheio de mim e de tantos. café e menta na boca. cigarro impregnado na carne. as salivas e os cheiros. este dia é feito da mesma substância do que virá e do que já se foi: estamos vivendo esse instante desde sempre, concomitantemente.] 




à beira da carne


ela me vem no silêncio
fria e artimanhosa 
escalando o corpo 
com sutileza de aranha
quando de si me apercebo
já é tarde:
escravizado faço-me 
às bestiais vontades
que sucumbem à beira
da carne. 

ela me vem sem aviso
nociva e traiçoeira
alastrando-se
como veneno.
toque qualquer ou palavra
pode vir a despertá-la:
coleira ou correia não há
que possa domesticá-la.

[submisso lacaio
de orelhas baixas:
dessa sina não vou escapar]

que culpa levo 
se desse corpo não posso livrá-la
se nesse corpo não posso contê-la?
sobre mim, escorre
para o mundo expelida, rasteja
mas há sempre de a mim retornar.


12/01/2015

é tempo


é tempo de novamente enfrentar os dias
acatar as horas com a cara lavada
dos que estão sempre mais
pra lá
do que 
pra cá.
é tempo:
e que não me parem
em meio caminho
pois meio caminho mal feito
exige retorno.

a mim, já não é tempo de retornos:
deixo ir o que tiver de ir.
rumos extraviados, que venham
desde menino 
estive sempre a traçar o rumo
da corda que balança sobre o abismo.
que assim ainda seja, não me importa.

é tempo de despertar novamente 
um susto estridente 
às seis da manhã.

que venha o dia
que venha a vida
até que seja tempo
d'outras mortes.


08/01/2015

usurpa


quero ver se te sobram sorrisos
ânsias ou desígnios
quando minha pele atritar na tua
e na rua teu rosto
esbarrar no meu.
estarei sobre pilares
perolado de marfim, quem sabe
pronto a num suspiro
usurpar-te 
tudo o que há de bom.
beber no gargalo tua vivacidade
destrinchar carnes e peles
que restarem
comer teus olhos
esmagar os dentes
trucidar vontades
e a carcaça que sobrar
- se sobrar - eu visto
revolvo meu corpo nos teus resquícios
aos quatro cantos da cidade
arrasto teu cadáver
amarrado ao meu tornozelo
como honraria, um troféu talvez.
(os cheiros da morte são rastros
deixados
em cada esquina). 
prometo que em ti não vai sobrar
querer algum
por nada que houver
nada que vier.
mas, amor, esse minuto logo passa
sinal abre
e mundo transpassa 
toda a ira estancada 
na garganta.
verdade é que continuo a caminhar
não há marfim perolado ou pilar
e nessa multidão você nem vê
que esbarrou em mim. 

06/01/2015

além do quê


além do quê
de mim você 
não arrancará
confissões à queima-roupa.
não, haverá de ter
suor 
haverá de ter sangue 
derramado sobre mim 
haverá de ter 
unhas dentes cabelos
tudo o mais que vem
o mais que tem
até que nada mais se baste
e nada mais se tenha
a que almejar.
digo-te mais
que ainda lutadas
as batalhas
vencidas até
talvez não seja ainda
a verdade
o ouro achado.
derradeiramente
quando aos teus atos
recompensa vir a faltar
saberá que em mim
ninguém se fia
por justas razões.
mas ajunte-se, amigo
me dê cá a mão
simpatia por arruinados
sempre tive de sobra
e há quem diga
mistificado
que isto lá tem até 
requintes de sadismo.


linha imaginária


andando sempre à beira do copo
de fragilidades cheio até a boca
penso sempre, tremulando:
cuida na próxima 
palavra dita, companheira
que pode-me ser fatal.
que virá não sei:
choro engasgado
grito propagado
à sete ventos
talvez
jogado aos teus pés
carne relada no concreto
convulsionando como bicho
envenenado.
mas verdade seja dita que
depois de todo revertério
há restauração
e mais vale dizer
que tanto pavor é por nada:
após os limites
ultrapassadas as fronteiras
limites, veremos, nunca houveram
e fronteira, tolamente assim
chamamos 
uma linha imaginária. 


04/01/2015

sangue, sêmen, suor


a palavra se tornou murmúrio
que se tornou sussurro
que se tornou rumor:
já não falam as bocas
dando vez aos corpos
que encaixados são como
um só.
há vários
em paganística dança
sangue, sêmen, suor
lambendo orifícios
são cães sedentos
mordendo lascivos
o osso e o cipó.
o choro pela manhã
é lamento desse gozo
que dura minuto só
enquanto o desejo
que nos escorre
não há dor ou eternidade
que sacie.


viciosamente


tempo passa, nada anda
tudo nada 
em mar de ócio.

você diz que muito aguardo o que está a me aguardar.

hora que vivo é gêmea
da que a antecede
instante após instante
maquinalmente
me repito. 

verdade popular: quem muita pensa, não sai do lugar.

diz aí
já é carnaval lá fora?
pois o que quero é não me ser
por um momento fugaz.