22/01/2015

à beira da carne


ela me vem no silêncio
fria e artimanhosa 
escalando o corpo 
com sutileza de aranha
quando de si me apercebo
já é tarde:
escravizado faço-me 
às bestiais vontades
que sucumbem à beira
da carne. 

ela me vem sem aviso
nociva e traiçoeira
alastrando-se
como veneno.
toque qualquer ou palavra
pode vir a despertá-la:
coleira ou correia não há
que possa domesticá-la.

[submisso lacaio
de orelhas baixas:
dessa sina não vou escapar]

que culpa levo 
se desse corpo não posso livrá-la
se nesse corpo não posso contê-la?
sobre mim, escorre
para o mundo expelida, rasteja
mas há sempre de a mim retornar.