[pastosa escuridão: manhã. um som rompante - 5:30 - f. ainda está dormindo. levanto-me lento, silencioso, chão frio na rija sola dos pés, o osso sacolejando possuído. corpo quente, jato gelado, luz atravessa pupilas dormentes: cá estou, coisa amorfa, tudo em suspensão. os móveis ainda não acordaram, permanecem imersos em seu silêncio imaterial, olhos fechados, como estão sempre fechados os olhos das coisas, compensando as orelhas atentas - sempre. as paredes têm ouvidos: dito certo. estômago retorcido, ruidoso: vazio. rumo refeito dia após dia é roupa desbotada pelo constante uso. perde-se a sensibilidade dos detalhes, nada de novo se percebe nesse caminhar. ônibus. o constante vai-e-vem. momento de atentar. lá fora tudo continua como sempre foi, apesar de. o meu consolo é a indiferença do mundo, de ser parte de um todo - terrível seria se cada um se apercebesse das minhas dores; horrível, sim, se não fôssemos tão irrevogavelmente egoístas. eu gosto do egoísmo. eu gosto dos pequenos mal-estares que nos mantém tão vivos. destino alcançado. caos matutino. as coisas já são coisas a uma hora dessas. f. com certeza já acordou, deve estar até saindo de casa, deixando para trás como evidência a marca de batom rosa na borda do copo de café. sabe-se lá quantas horas até a hora chegar novamente. chego todo ausente, saio cheio de mim e de tantos. café e menta na boca. cigarro impregnado na carne. as salivas e os cheiros. este dia é feito da mesma substância do que virá e do que já se foi: estamos vivendo esse instante desde sempre, concomitantemente.]