22/06/2015

fragmentos II

3
há muito a se ter para que aqui eu permaneça
vazio, tolhido, colhendo santidades.
liberdade é coroa de espinhos
açoitados insistimos
apesar de.
a palavra bruta e indomesticável
retorna ao peito e abrasa.
4
(dizem que ando bebendo demais
fumando demais
persistindo no além 
para além 
do que sou.)
vê como ele vagueia: 
o corpo insiste e sabe.
não há mão que puxe
ou voz que acalme
precipita o passo
precipícios clamam.
para onde marcha, josé?


18/06/2015

fragmentos

1
boca-contra-boca-contra-carne
contra-dente-contra-unhas
corpo-a-corpo-um-a-um
outro-a-outro.

no centro do redemoinho

faço morada. 

2
a noite estrala n'outra ponta da rua:
não é tempo de retornos.
um cigarro após o outro e velhas doses
para distrair as feras.

qualquer lar me espera?
ando ultimamente a atinar sozinho
passo frouxo, solto por aí
talvez seja sinal de desvario -
é bom não duvidar. 

conhecidos dizem 
que sempre me vêem nos mesmos cantos
circulando sem destino algum.
não sabem é que
carrego comigo
questões ancestrais
sempre a ponderar
que não é tempo de retornos.
e retorno, por si mesmo 
penso que não exista:
tudo repetido é um tanto 
quanto
sempre 
novo.


16/06/2015

esta cidade já não me diz nada


do que te vale vagar sozinho?
cada alameda leva ao mesmo lugar.

as palmeiras cansaram, lamentam indiferentes
o canto não se ouve 
sob o ronco dos motores 
e a fumaça e a pressa 
e os gonzos rompidos
e janelas fechadas 
e portas abertas

e todo dia eu só penso em poder parar
e todo dia eu só penso em querer voltar
e terminar e desistir e persistir e reatar

mas são tantas as pressas que me afobam
todo dia um querer ir além
saturado do sal desse mar
insipidez do vai-e-vem

e todo dia é um querer não ir
tarde demais 
para cruzar muros erguidos
quebrar
feitos tratados
violar
velhos caminhos
se prostrando inamovível
sob cortinas e lençóis. 

num dia habito
n'outro, hospedo.

hoje esta cidade já não me diz nada.
o amor escorre sobre a calçada:
substância-furta-cor. 

13/06/2015

queda livre


a montanha-russa está apontada para o abismo
tudo o que se ouve é o silêncio do meu grito
giro-a-giro voo, extraviado do caminho
todo passo é impasse 
e toda fuga é um vício


08/06/2015

rua ante rua


tudo ultrapassa
braço ante braço
perna ante perna
maço após maço 
nada abarcado
não reatados
laços deixados
ao vácuo do vento
              
becos andados
jamais retornados 
aos nossos pés

noites perdidas
terras baldias
vagar de ninguém 

(eu ouço a cidade a julgar; condena os que um dia seremos)

rua ante rua, clamando à lua
que tudo não cesse assim
e as casas nos olham
seus olhos amuados
e os céus subjugam
não posso abraçá-los
pois tudo ultrapassa
e braço ante perna
perna após braço
maço ante perna
 braço após maço 
após perna
ante maço

06/06/2015

rascunho sobre c.


(se a presença inibe e a ausência enerva, o que nos resta?)

eles dizem que há de se aprender
a cruzar travessias
e resistir à imersão
mas é outro dia e os olhos pulsam
oceanos continuam a me impelir:
há tanto a se ter e viver
e nada persiste em mim.
eu, que me arremesso inconstante
aos comodismos da solidão
e cronicamente permaneço
a desejar o calor do outro
em nada atino que me mantenha
ou alivie os desacertos.
que trilha é essa que sigo,
que estrada é essa que vejo?
meus passos insistem vastos
buscando o vago do abismo.
eu, que temo declarações
silenciosamente derramo gritos
clamo cru, escapando do vício
evitando metáforas 
que ocultem o genuíno:
tudo o que quero é ser amado.
sei que haverá de chegar o dia
em que saberei ser e ter
rendendo-me sob as asas
dos que me querem bem.
será a hora em que 
todo desvario silenciará
e correntes fechadas
amarras trançadas
se desfarão em fumaça 
espiralando no rumo do mar.

para o infortúnio dos que insistem 
em seguir o pé selvagem
que jamais satisfaz-se
com destino algum
o instante em que tudo cessa
não se sabe
qual será.
sim, haverá de chegar a hora
não nestes braços
não nestes lábios
não na beleza dos momentos
que agora me são oferecidos.
nada há de certo 
nos rumos que sigo
nos amores que encontro
nos corpos em que habito.

viver sempre foi um progressivo desatino.