06/06/2015

rascunho sobre c.


(se a presença inibe e a ausência enerva, o que nos resta?)

eles dizem que há de se aprender
a cruzar travessias
e resistir à imersão
mas é outro dia e os olhos pulsam
oceanos continuam a me impelir:
há tanto a se ter e viver
e nada persiste em mim.
eu, que me arremesso inconstante
aos comodismos da solidão
e cronicamente permaneço
a desejar o calor do outro
em nada atino que me mantenha
ou alivie os desacertos.
que trilha é essa que sigo,
que estrada é essa que vejo?
meus passos insistem vastos
buscando o vago do abismo.
eu, que temo declarações
silenciosamente derramo gritos
clamo cru, escapando do vício
evitando metáforas 
que ocultem o genuíno:
tudo o que quero é ser amado.
sei que haverá de chegar o dia
em que saberei ser e ter
rendendo-me sob as asas
dos que me querem bem.
será a hora em que 
todo desvario silenciará
e correntes fechadas
amarras trançadas
se desfarão em fumaça 
espiralando no rumo do mar.

para o infortúnio dos que insistem 
em seguir o pé selvagem
que jamais satisfaz-se
com destino algum
o instante em que tudo cessa
não se sabe
qual será.
sim, haverá de chegar a hora
não nestes braços
não nestes lábios
não na beleza dos momentos
que agora me são oferecidos.
nada há de certo 
nos rumos que sigo
nos amores que encontro
nos corpos em que habito.

viver sempre foi um progressivo desatino.