10/10/2016

faço do meio-fio a beira de um abismo

faço do meio-fio a beira de um abismo
corda que bambas as pernas cruzam 
cientes de que jamais chegarão ao fim;
vivo este dia como se fosse
assim tão longo que permitisse
que eu me escorasse dormisse deitasse
em qualquer lugar que encosto
sem pensar na hora que virá;
faço deste dia, assim como fiz dos outros
o dia que decidirá se persistirei ou não;
faço do corpo do outro
oceano
em que mergulho e me afogo
e me convenço 
de que meu amor
é mais do que o puro egoísmo dos poetas
e mais uma vez
me engano;
faço de tudo para que as banalidades
não nos tornem mais um caso comum
narrado na mesa de bar
mas ando crendo
que a bossa-nova é não mais que isso
e basta rir
fazer com o que o meio-fio 
seja esnível a se cruzar
que este dia que vivo 
seja idêntico ao que virá
aceitar que o corpo em que mergulho
me aprisiono e amo
hoje ou amanhã deixarei de amar
e nada haverá nisso de tão letal
que outro meio-fio
outro dia
ou outro corpo
não cure.

20/09/2016

mère

veio a brisa e levou
assim direi quando perguntarem
onde estão teus olhos, tua boca
teu riso, teus dentes
teu rosto grudado ao meu
como segunda pele;
veio o tempo e sanou
de repente me dissolvi
sobre a mesa suja de um bar qualquer

num copo de cerveja pela metade
não é parte de mãe nem de pai
o semblante que agora visto
o corpo que habito
o riso que rio
o descaso que sou
mas carcaça moldada
soldada serrada
fortemente pregada
à carnadura de ontem.
talvez te encontrem
nos pesos que levo
nos choros de enfado
no arroubo da dor
mas não, não mais tanto pareço
com aquele que sou
e se quiserem me buscar em ti

traçando os pontos
ligando sinais
avise que estou
perdido na guimba de outro cigarro
misturado ao suor dos homens que amei
pois tanto foi o tempo levado
parece-me é que nada sobrou.
se caminho este passo 

no escuro
pronunciando teu nome 

com a fria indiferença de um oráculo
é talvez porque muito ainda se tenha
a falar, e ainda assim nada falo:
entro natimorto

no ventre da noite
pra rebentar com o grito ancestral
de quem nasce de novo. 

F. nunca esteve aqui


F. a partir de certo ponto enclausurou-se num silêncio denso, assim tão espesso que às vezes eu chegava a tocá-lo, com espanto. Ela já não estava ali; caminhava de um cômodo para o outro como se há muito houvesse deixado de existir, e mesmo fisicamente tornava-se menos nítida: os cabelos longos e louros quase se dissipando; a pele negra translúcida; os olhos antes vívidos agora tão baços que era quase como olhar para o fundo de um rio pantanoso, de revoltoso, enigmático leito. Nossos dias eram preenchidos por aquele langor de atos; ela nada falava por já não lhe sobrarem palavras, eu nada falava por saber que cada palavra minha sucumbiria rapidamente diante do inamovível muro erguido entre nós dois - ou, melhor dizendo, entre F. e o mundo. Às vezes tentava recuperá-la através dos mínimos detalhes: um amontoado de cabelo no ralo da pia; o copo deixado há dias no mesmo cantinho, ao lado do bebedouro, com a marca do batom vermelho; as sandálias abandonadas, melancólicas debaixo da rede; o cheiro do perfume masculino que seu amigo - Antônio? - havia lhe dado, impregnado nas almofadas; os óculos de aro vermelho com uma das pernas tortas; sua voz, esta não real, mas pedaço de lembrança, mandando-me ir ali, acolá, pegar aquilo, comprar isso - comprimidos, conta-gotas - falando-me que há uma dor aqui, há uma dor ali, há uma dor que não sei exatamente de onde vem mas aqui está meu deus será que há medicina para isso? F. costumava falar bastante; suas ideias nunca chegavam a se completar - até que calou-se; e aí pareceu-me, também, que o mundo todo havia se calado, mesmo que lá fora todo o turbilhão persistisse imutável - pedestres carros avenidas ônibus pássaros árvores gritos sussurros diálogos. Retomo F., prendo-a entre meus dedos, ainda que lá esteja ela, deitada, silenciosa, pacífica. Parece-me que no momento em que eu virar meu rosto, F. sumirá. E só então notarei, nem tão surpreso assim, que F. nunca esteve aqui. 

07/09/2016

o instante interposto


desde sempre
os domingos atiçam os desejos
assentados sob minha carne
indiferentes ao vazio do estômago
ou à poeira insidiosa dos sofás

os dias santos
desde sempre em mim despertam
o desejo de escorrer
sem pejo
de jorrar inteiro
entre os olhos
sobre o peito
na garganta
de um rosto divino 
qualquer

as rezas desde sempre 
andam a dizer
que meu corpo é templo
sagrado
então a ele ofereço sacrifícios
pequenas mortes
rugidos balidos pernas braços orifícios
abrindo portas, sustentando pilares

pulsante o fôlego à meia-luz
entre a estátua de santos à luz de velas
súplicas lascivas sussurradas aos céus 
no instante interposto
entre um gozo e outro

03/09/2016

le petit prince

(nas tardes em que fodemos
fodemos sem amor.
não houve nisso nada de tão absurdo
quanto pensam.
minha carne manchada.
paixões acidentalmente derramadas. 
a guimba do camel.
uma dose do vinho barato.
o que me basta é abrir as pernas
baixar as calças
dizer que por aqui venha
que nada mais há além disso
nada mais há a ser delegado 
aos que perdem tempo 
escrevendo poesia
(era de se esperar que crescêssemos frustrados).
tarde demais compreendi
que o essencial jamais 
é invisível aos olhos;
essencial é o gozo, o que toco:
os homens que amarei
esqueceram essa verdade
mas eu, não, eu não a esqueço.
sim, talvez por hoje
você possa me chamar do que quiser
contanto que.)

22/06/2016

dimanche

a morte dedilha
nossas vértebras
e se esgueira indiferente
porta adentro
como se lá fora 
não rufassem as árvores
e passassem os ônibus
e cruzazem-se as pernas
e não fosse
hoje
o domingo
mais bonito do mês:
olhe este céu azul-piscina
ofendendo nosso olhar
eles dizem;
a morte
enfastiada
sob a seca palavra
objetiva e quadrada
resguardada no poema pensado
e repensado 
diversas vezes
mas nunca escrito;
morte colhida
como orquídea 
como este verso
que não sabe de onde veio
ou pr'onde vai; 
morte tolhida
sem anúncio
que entrou sem avisar
saltando a veneziana
e se escondendo sob a mesa
correndo fugaz, tão veloz 
que ninguém soube
o que havia sido
pássaro ou avião
morte entre nossos atos
na simplicidade da nota musical

um minuto 
desde que a morte
pousou em nossos ombros
e alçou o voo
destrambelhado 
farfalhando perolada
até o canto da parede
e por lá mesmo ficando
(desde então
não se fala mais nisso).

17/06/2016

lembrete

[é tudo parte de uma ilusão maior
engrenagens secretas sob o fôlego
e o dia lá fora está bonito demais 
para que eu o gaste 
com um poema de amor]