31/12/2014

Café da tarde


derramarei tuas últimas gotas no café da tarde
para que os estranhos te sorvam
e pouco a pouco 
você se dilua
em outros corpos
que não o meu. 


21/12/2014

Descoordenadas


estrada para a degradação
entre dois copos de vinho 
e três cigarros sobre a mesa:
os meus olhos vacilaram sobre os teus
desviaram atinados
cheios de torpor 
e um riso me rasgou o peito
como rasgaria a noite com suas asas
agourenta suindara.
sabem o que esse gargalhar clama
mas jamais o que oculta
riso que, parido alegre 
cimenta o choro.
e em cada trago consumindo as horas
em cada gole desejando o fim
e mesmo o que me arrasta agora
só me guia aos confins do que 
sobrou de mim.
ao fim do dia já não sei do tempo
relógios e calendários não me falam nada 
que eu queira saber
ou já não saiba.
sempre há de me parecer cedo demais
tarde talvez para retornar ao início.
mesmo quando o corpo padecer
tremular
arquejante
e a náusea me fizer arfar
engasgar
como cão sedento 
chegarei 
enquanto meus passos me guiarem
sem que eu saiba. 

(na manhã já não sei quem fui
busco memórias
pedaços de mim.

na estrada que se abre
quem sabe eu me perca
para jamais retornar
ao que sou.)


10/12/2014

Pavor nocturnus


sobe-me a ânsia
frio espasmo na garganta:
esses súbitos desejos, amor
dia ou outro 
hão de matar.
convulsivo entre lençóis
inquietude me amordaça
e minha carne enrijecida
atritando inflamada
no desejo aterrado
do que não se pode ter.
bicho enjaulado
gritando entre quatro 
paredes assépticas
é o que sou.
obsceno te caço
focinho manchado 
cão no cio
farejando teus fluidos.
no escuro te desenho
ligo pontos no fosfeno: 
basta-me um minuto fugaz?
ilusão presa entre os dentes.
tenho urgências, sedes, fomes
que jamais saciarão:
quem há de entender, amor
que a selvageria no meu peito
imobiliza? 
ao que foi e ao que há de vir
alerto sempre
a mesma velha questão
dos olhos que a tudo distorcem
e um coração 
que com nada
se satisfaz. 

09/12/2014

Lavoisier


I
de ti sobraram versos
e mesmo eles
um dia serão de outros


II
     
diz-se que a poesia jamais se perde:
é casa aberta a quem queira
habitá-la. 


08/12/2014

Atemporalidade


[cada verso riscado 
no papel em branco
é uma fenda
cavada
na crosta do tempo]


02/12/2014

Oração


deixar-me ir para além do que sou
traçar fronteiras e ultrapassá-las 
entregar-me por inteiro à incerteza
de tudo o que foge de mim.
fechar os olhos, inspirar
desenlaçar meu corpo
das cordas que o prendem.
conduzir-me pela correnteza
em seus braços de languidez
aos desconhecidos continentes
que me habitam.
permitir-me à destruição, expirar
posto que depois da ruína
serei renovado. 
de pés juntos afogar-me
(pedras nos bolsos)
nos excessos que me traguem
mas jamais me entorpeçam.
libertar-me, portanto, 
de tudo o que me pesa
posto que jamais foi meu.
amém. 


23/10/2014

Sobre o vazio das últimas horas


em meus olhos
silêncio perdura
lábios cerrados num fio
meu corpo
retesado e nervoso
sangue derramado
sístole e diástole
pulso irrequieto
nada mais
além disso.

mas aqui dentro, te juro:
babilônias construídas
mares e ilhas
multidões amalgamadas
vozes e olhos
cidades à vista
num horizonte de cores
vibrantes.

mas para além de mim nada escapa
tudo morre no peito
antes de nascer 
e virar palavra.

20/10/2014

O prazer de degradar-se


Nos leitos de ferro e nas ruas rançosas: 
Nossos retornos inesperados.
Entre bocas molhadas e carnes abertas
Pecados supuram sangrando. 
De meus lábios, banhados em sacrilégios
Jamais ouvirá que te amo
Pois amor, meu bem, há muito não nos serve.
O que nos serve são
Cidades arruinadas
Salas defasadas
Quartos empoeirados;
Palavras sujas 
Sussurradas nos ouvidos
Dentes na carne fincados.
O que me serve 
É o êxtase da dor
E não o toque da paixão
Que paixão, meu bem, é para quem
Desconhece o prazer de degradar-se. 


13/10/2014

Quero fazer do teu corpo país de origem


quero fazer do teu corpo país de origem
explorar tua carne e colonizá-la
com a palma das minhas mãos.
sob tua pele farei moradia, dócil e silencioso
incitando teus sentidos mais primários.
quero percorrer teus territórios inexplorados
com a ponta da língua
em cada espaço dos teus ossos 
deitar meus lábios 
quentes e ávidos 
pelo sabor que de ti escorre.

em tuas pernas, em teus braços
quero me exilar
oculto entre as costelas 
ou no oco das clavículas;
e jamais ser devolvido ao mundo
encarcerado, à deriva
na ilha inebriante de teu corpo. 

11/10/2014

Fragmento perdido sobre Rosa


Rosa partiu e nem avisou. Deixou que o vento a levasse assim, facilmente. Como fumaça se dissipou, tornando-se muitas entre os vácuos do mundo. De tanto dividir-se, desbotou-se, e hoje o vermelho dos cabelos se tornou acobreado e o verde dos olhos um translúcido e esquálido tom de acaju. A vida a tomou, a tocou, a maculou - antes ampla demais, agora já nem sei. Será que eu reconheceria Rosa se a encontrasse perdida na avenida ou por trás da vitrine de alguma livraria, folheando um livro de Clarice? Ah, já nem sei... Rosa nunca pôde fugir da própria fatalidade: ou deixava-se resvalar para o abismo (sendo essa a sua sina, inquieta e irreversível) ou cedia à forçosa tarefa de existir; ou permanecia no silêncio lotado de meio-termos ou se entregava ao cárcere das palavras, sendo esses os dilemas que a transformavam, pouco a pouco, em poesia...


28/09/2014

Divórcio


desejo novas febres
pulsantes e escarlates
além de flácidas ardências
que não me preenchem
mais.

dessa língua amorfa que percorre 
minha carne
cheia de mágoa
clamo alforria.

o beijo ilegítimo e malfadado morre
entre os lábios
num amargar de cinzas.

      violar tratados
      e alargar fronteiras
      é o que desejo
      a partir de então. 


29/08/2014

Me deixo demolir


Sem perdão, sem saída
Há sob a cortina dos dias
Um zunido de espera vã
Sem mais lábios sobre os meus
Sem mais corpo
Sobre o teu
As horas escoam não através
Mas entornando as margens da carne
Erodindo os limites das fronteiras
Entre o que se vê e o que se há.
Renuncio: 
O pulso da palavra 
Já não renasce em mim.
Deixo que me usurpem, agora
Desse leito impermeável
Que me extirpem do habitat
Dos silêncios e escuros.
Há sobre mim o peso dos anos
As ondas do tempo me corroem
Enfim
Torno-me inteiriço e consinto
Me despeço dos instantes
Que hão de vir

E me deixo demolir.


11/06/2014

A. (ou Rosas no magma)


amor, não se aflija 
desde sempre 
ando inventando histórias 
e plantando rosas no magma.
arremessando-me aos vazios 
e alimentando-me 
de inexistências floreadas.
inviolavelmente vil, inegavelmente
tolo, desde sempre estou amando
o que não me convém.
portanto não se agrida, não me atente
dê um riso descontente 
se for o que te alivia.
tudo em mim transpira
irreversibilidade
primaveras nascem de cada olhar
d'outro verso, a eternidade.
tudo o que o compõem é minha totalidade
não existe único, não é o primeiro 
se haverá último
não se sabe.
a realidade dos sentidos
e a fidelidade dos rostos
se desfazem
o que importa é o resquício
que mantenha
a velha chama. 

05/06/2014

Interlúdio II


este momento é vivido aqui e além.
um vão meandrante me leva ao fim

todos os atos são fatos incertos
calcados em mim. 


30/05/2014

Dá-me


dá-me de novo teus caprichos
toques fugidios
beijos lascivos
um olhar verde enviesado 
no passo tonto
no passo lasso
dá-me de novo teu desejo
carne conjunta
rubros joelhos
dá-me de novo teus castigos
cingir ardente
fustigo vivo
dá-me as tuas maldições
os impropérios
imperfeições
deixe-me ser
a fresta aberta 
na tua macicez
corpo insidioso 
interposto
ao teu e ao dele. 
deixe-me
ser a musa 
rosto evanescente
de teus rascunhos sem face.
te mostrarei o que há além
da ternura e dissidência 
das canduras da inocência
o que há além 
de nós dois.
dá-me de novo tua paixão
para que eu possa rejeitá-la 
escarnecê-la em derrocada 
para a sombra do desejo

através da fronteira
de nossa carne
hei de pender no vão
entre corpos que se repelem
e alvas formas
sem fricção. 
devolvo-te meus sorrisos
meus olhares
escudo-te 
em meus silêncios.
eu estou
para muito além 
do que não se vê
um simulacro
atado na própria sina
de não se ser.

11/05/2014

Lamento outonal


[Silencioso, assisto ao percurso dos nascimentos
Enquanto em mim outro ramo se solta
Um antúrio fenece, as acácias descascam.
As cores da estação, mais do que nunca
Me agridem os sentidos e amansam as vontades]


22/03/2014

Fragmento perdido sobre Rosa III (ou A casualidade dos corpos)



Encontrei Rosa na estação hoje. Mas, enquanto escrevo, parece-me que o tão ligeiro acontecimento se deu em algum sonho que tive na noite passada. É capricho de Rosa deixar em mim a indelével impressão de que nada que a circunda é real, como se trouxesse consigo uma redoma impenetrável de incerteza. Por isso escrevo. Para que as linhas sejam a maior testemunha de que a vi, sim, de que a vivi; de que aquele instante na estação, poucos minutos antes do meu trem partir, existiu. A conversa foi extremamente casual, como se espera dos indivíduos que agora estancaram num estranho meio-termo entre conhecidos e semi-conhecidos. Falamos algo sobre filhos (não os tivemos) e viagens (ela viajou bastante; encontro países e estados entremeados em seu indistinguível sotaque). O que entre nós existe de mais relevante e suntuoso, porém, só se fez presente nas coisas não-ditas, no intervalo silencioso que separa uma palavra da outra, nos segundos que existem antes da ponderação de uma resposta. Rosa abandonou o antigo ruivo e decidiu-se por um loiro-pardal. Serve-a bem. Parece agora ter adotado um gosto por roupas vermelhas e floridas. Trocou o perfume adocicado por um mais forte, masculino, quase cítrico. Está um tanto quanto cansada, eu diria, mas ainda detentora do mesmo charme de pássaro. Ficamos ali e, intimamente, sem que Rosa sequer imaginasse,  perguntei-me como aquele instante pareceria em minha memória daqui a algum tempo, pois sempre tive dificuldade em viver o agora. Tudo em mim só é sedimentado no depois; a fúria da vida me entorpece. Talvez eu me lembre desse minuto na estação com pavor, indiferença ou ardor. Talvez eu o some a todos os instantes em que estivemos juntos e monte uma única e incerta circunstância. Bem, ando notando que o tempo corre em círculos. Há nisso algo de muito reconfortante. Se os dias fossem lineares, que fardo seria viver hora após hora! Sendo assim, sei que Rosa e eu nos encontraremos novamente em outras estações ou avenidas e travaremos a mesma conversa cheia de circunlóquios que hoje travamos. Desde a primeira vez em que a vi naquela livraria ou atravessando a Catedral, eu soube que estava a vendo não só ali, mas também em muitos outros séculos e tempos imemoriais que coexistiam harmoniosamente. É verdade que pouco a pouco perderemos o senso de quem nós somos, esqueceremos de nossos rostos e da silhueta de nossos corpos. Mas sempre vai existir algo de maior para me conduzir através, como o fogo já pálido de uma lamparina. Ah! Rosa falou algo sobre ter sido um prazer me ver. Não perguntei para onde ela ia. Como sempre, não marcamos outro encontro. Parece até descuido, mas que maldições nos enlaçariam se quebrássemos a inefável mágica da casualidade? 

26/02/2014

Indelével


mancha sobre mancha:
o teu gozo nos lençóis

indelével
sobre mim

o teu gozo
virou pranto.