16/12/2013

Arrulho


sob o ranger de meu peito
ouço o arrulho de um pássaro
leves asas ribombando
no vazio dos meus ossos.
a besta
cimentada sob o tórax
deu agora de fremir 
e inquietar-se
dando-me o fastio 
e a desgraça
a vertigem e a ansiedade
que me afunda nos lençóis
ao dobrar do meio-dia. 
hei de olhar os séculos
assistindo ao lento pendular
das horas
e bradar ardentemente
enfastiado:
que enfado!
o bicho, agora, deu de ser feroz
de ser bravio 
de colocar-me em desafio
com meu próprio caminhar.
com seu bico polido
destituindo
o que há de virtude 
e o que há de
vício
descansando a cabeça macia
no oco flácido do pulmão.
ah, que peso!
em cada fôlego engolfo 
engasgo 
cada coragem que me chega
eu cuspo:
já não me cabe a vida inteira.
os anos correm
só na noite o arrulho silencia
meu corpo pende em torpor
pra não acordar a pestilência.
um dia adejarei 
de uma sacada qualquer
caindo pesado
no passeio público: 
o peito se abrindo inteiro 
os ossos me atravessando
o sangue tingindo em rubro.
o arrulho, então, há de 
cessar
mas não agora
digo
brando e silencioso
pois teimoso
afago e consumo
tudo o que não me cabe. 

10/12/2013

Sobre lembranças e sonhos


I - Sobre as lembranças



teu perfume é forte demais para mim
agride, atroz, esse olfato juvenil
extirpa as fragilidades sensoriais
deflorando minh'alma como se fosse tua.
o vestido é vermelho, cheira a cigarro
entre os seios descansa o orgulho
reverberante como ametista.
por dentro, eu sei que você é
vermelha e ferina.
na ponta da língua
mordida e tostada.
não me culpe 
se devido aos teus excessos
até esqueci-me de te perguntar o nome.
parecia ser só casualidade, vê?
tamanha a tua imensidão de cores
deixei-me livre afundar.
mas agora, adorável anônima
efervescente e distante reminiscência
vejo a importância de um nome:
ele revela
desmonta.
poderia começar com R, erre, er-re
consoantezinha agreste 
como a tua voz.
teu sotaque, tua ordem.
seria então
imperativa! como toureira espanhola
sempre a sacudir a rubra cortina
rasgada
domando meus frios embaraços
num canto de desordeiras sinfonias
instigando gritos com maestria
acordando as ferocidades da vida
para que elas
tão doces, tão brutas
te atravessassem a espinha.


II - Sobre os sonhos




garoto, eu gostaria de te fazer um pedido:
depois de partir
não deixe seus passos na escada.
na noite eles sucumbem
ao pé do meu ouvido
como tuas pequenas 
graciosas risadas. 
pedir demais, eu sei, você diria
que gracejo! 
que extravagância seria
morrer assim tão facilmente.
as roupas estão na gaveta
saturadas por teu aroma agridoce
fios de cabelo loiro na banheira
abraços quentes nos corredores.
o açúcar derramado 
sobre a mesa
permanece cruelmente intocado.
peço então com humildade
de um jeito torto 
que sempre há de comover
teu coração selvagem:
meu amante, meu carrasco
não dance entre as cortinas ou
se insinue nos meus sonhos 
fugazes
pois eles revelam muito de ti.
não trauteie 
nos corredores
pois ora ou outra 
hei de te ouvir.
feche a porta com doçura
antes de partir 
e virar sereno
pois acordado ainda vejo
a doce penumbra 
percorrendo os arabescos.
demônios e fantasmas 
dançam de mãos dadas
na sala de estar
nunca mais os deixe entrar
você é o necessário para me 
consumir
entre todos os risos-e-cantos
sombras-e-planos
(será que lembraria de cada um deles?)
passo leve, eu peço
sei que tão contrário ao teu trotar
de dançarino
pois as escadas de madeira oca
na noite trovejam e despertam
meus pavores juvenis.
ainda um pedido 
tão derradeiro quanto nós dois:
deite ao meu lado com a leveza
de uma pluma 
beije-me a fronte com doçura 
de mariposa
vá embora antes que meus olhos se abram
e, por favor, amacie o travesseiro.

08/12/2013

Epopeia dominical


o
meu 
corpo 
cai
pesado

gira 
no mármore triste da sala de estar.

23/11/2013

Maués


do sorriso fez-se vasta a tortuosa estrada
embotados olhos de amor e pejo
como se para nunca mais 
meus braços desatentos
escorregam nas tuas curvas gastas.
ah! vai agora acalentar meu pranto
desfazer-se em tantos
afundar os pés 
no negro espelho;
e polir janelas, e soprar as flores
e deitar em meio 
às vitórias-régias
na pulsante relva
da minha antiga terra
de gorjeios tantos.
pois hei de voltar
um dia encostar o alento
e bradar o canto.
em indelével calor 
que perpassa a espinha
os rubros lábios beijar
- sabor dos ventos! - 
no toque escaldante 
romper
a delicadeza dos banzeiros.
pois: vejo imponentes pequiás 
negras mariposas e
pétalas selvagens 
bailando e se fundindo
em verdejante mixórdia.
[e, além, ainda a cintilar
os olhos de viço 
daquele lugar
onde um dia descansei a cabeça
e sonhei com suntuosas
majestosas
babilônicas terras]. 

30/10/2013

Dafne


essa ardência no peito, esse peso intragável, é mal de nascença. os cataclismos que a rotina me traz: peças de um deus sacana. deixa aí esse pobre diabo tropeçar nos próprios pés, deixa pendurado o corpo dele sobre o poço, larga o guindaste até a boca do inferno onde tudo é vil. dormir com um choro entalado, um engasgo que nunca vem, resíduos atolados na garganta - a esperança é um sonho bom que lava a escória grudada na pele. eu sou o bicho mais sensível do mundo, fera mais vulnerável, hiena solitária a devorar os restos no escuro. a vida fica estampada em mim longo tempo como tatuagem de azul incandescente - durmo, acordo, e o fulgor dos olhos ainda arde na pele. talvez eu, desastroso como sou, devesse permanecer como um passarinho acuado: empoleirado sobre a multidão, empoleirado sobre a existência; cantando meus cantos de tristeza, lamentando meus lamentos, poetando meus poemas de ardor. mas lá estou eu - aqui estou eu, acolá eu estou - sendo extraviado pra outros céus, varrido por ventos travessos, rodopiantes monções que me inflam as asas; mergulhado em mares profundos e estéreis, que guardam em sua escuridão seres de face tresloucada. eu que o diga: prefiro o silêncio. sou de meus vícios, de meus escuros; contrato vitalício com meus demônios. quando vem esses desvios, esses horrores, essas peças que os deuses me pregam e me fazem fugir da vida tanto quanto Dafne do Amor, só se pode enxergar via de mão única pra rua sem saída, olhar pro céu e clamar aos santos que meus pés criem raízes e meus braços virem ramos; e o corpo se tronque inteiro, como um majestoso loureiro, até que não me arranquem desse chão.

09/07/2013

Réquiem


De nosso silêncio

Um dia nascerão majestosas sinfonias 
A ressoar sobre a grama verde, circundando suntuosas lápides
E pálidas madames vestidas em negro. 

Sob a voz e o crocitar
Renasceremos como dois iguais;
Ainda no corpo o aroma das rosas
E pétalas secas na garganta entaladas. 

Um dia 
Falarão de nós 
Em salas frias; na autópsia, a sentença desconhecida
Enquanto no tempo nos dispersamos 
Como corvos de seda.

(Da sinfonia que antes fomos 
Eu sei
Agora renasce majestoso silêncio)

07/07/2013

No jardim de narcisos


negras mariposas e cintilantes vaga-lumes
escrevem teu nome no ar; 
a gélida brisa noturna o arrasta até mim 
e em minha carne 
tenras letras
se estampam em brasa. 


25/05/2013

Espuma


e se um dia leva o outro através da maré
onda após onda
entre corais
descanso na margem dura
mãos em poças salinas
contornado de fina esperança
que se dilui ao vento.

05/05/2013

Aforismos I

1
Basta tornar-se ciente da salvação para que ela, fugidia, transforme-se em fardo.

2
Minha palavra é como carne vermelha às feras que te habitam. Se cedo é para que, diante dos meus olhos, tua alma se decomponha em mil. 


3
As mãos inquietas dançam no escuro em busca do além. Mal se sabe que ultrapassar os extremos é também estancar no vazio.

4
O que há de perpétuo em nós é a palavra. Com sua grandeza monumental, soergue-se entre os séculos e traz à tona a adormecida evidência do que já fomos.

5
Sob a luz do dia a fera persegue; de suas presas tão brancas o sangue goteja. Espreitando em esquinas lotadas, a ameaça de um golpe final - nunca virá.

6
O passo ao abismo não se reverte; a mão que se estende não vai recuar. De todos os corpos e valas profundas, palavra não dita é o que há de sobrar.

7
No compasso dos ponteiros, lentamente se desfaz a tênue linha entre a leveza dos dias e a loucura bruta da rotina.



30/04/2013

Belle de Jour


eu quis dizer pra essa mulher desconhecida do ponto de ônibus que a amo como nunca amei mulher alguma nem minha própria mãe quis perguntar-lhe o nome mas a voz estancou na garganta e voltou como fera acuada para os mais escuros recantos desse ser frágil e tremeluzente que sou e poderia ela me amar mesmo que esteja vestida com roupas tão claras e seja seu olhar de gazela suspeita assim tão leve que suspenda toda a vida bruta que caminha sobre os asfaltos dessa cidade? poderia ela me amar tão livremente quanto a amo libertando minhas correias com os dentes e compreendendo que apesar de tudo não sou nada mais que um bichinho acuado dentro de um ventre escuro? mas quem é ela quem é ela que me transtorna e me deixa o passo um tanto quanto desequilibrado? ela é não mais que uma pessoa em um milhão em um bilhão em um trilhão  é como o mendigo e a cortesã que também pegam o ônibus das 4 e enfrentam essa extrema labuta que é ser humano e seguir regras mas eu te digo que por ela adorável anônima eu quebraria as convenções que nossos patronos determinam 

dentro do ônibus ela é outra se desbota e seu rosto se torna acuado e fechado e quando se senta nessas poltronas sobre a substância de muitas outras mulheres funde-se a elas e se torna um amontoado de moças desiludidas iludidas pardacentas e austeras mas com o mesmo delicado rosto de porcelana e de repente abre um livro sobre as pernas e logo me surpreendo e contenho um sorriso pois ela é uma dessas garotas que lê Nabokov usa óculos lê Nabokov e pega o ônibus 52 (poderíamos afinal ser uma peça do mesmo brinquedo) sinto o impulso de dizer-lhe que Kafka é tão bom quanto Nabokov e que apesar de tudo Kafka e Nabokov pouco tem a ver mas afinal poderíamos tomar um café naquela lanchonete da esquina e descobrirmos que sim entre Kafka e Nabokov há uma tênue linha que podemos romper mas há entre nós uma velha robusta um homem suado e uma criança que chora e afinal ela não levanta os olhos dessas linhas tortas para averiguar que a olho como um gato perscrutador mas muito provavelmente mesmo me olhando ela não perceberá que a desejo com todas as fúrias de um garoto adolescente pois nasci com a sina de inexpressivos traços 

o ônibus para nessa avenida tão vasta e ela guarda o Fogo Pálido na bolsa de camurça e pousa os olhos sobre mim por menos de um minuto uma fração de segundo que dura um século inteiro e de repente se força entre a velha suada o homem robusto e a criança que chora e já não é mais a junção de todas as mulheres do mundo mulheres de Almodóvar mulheres de Bergman agora é não mais que a anônima que lê Nabokov e usa óculos de aros grossos e na manhã seguinte estará na parada às 2 esperando o ônibus das 4


28/04/2013

Monções


Através de mim tudo flui 
como um suspiro, uma corrente;
Se fecho os olhos, sinto os dias.
Saboreio cada hora 
Diluindo-se na língua.
Vozes e mais vozes se unindo em uma cantiga
Há no mundo, meu Senhor, poesia?
Se mergulho na corrente da baía 
Há no mundo poesia.
Se estendo os braços sob o sol das 4 horas
Há no mundo poesia.
Se o vento me atravessa, 
me bagunça e me desfaz 
Há no mundo poesia.
Mas agora trovejo, trêmulo como um galho
Solto à ventania

[Quantos mundos, meu Senhor
na poesia?] 


17/04/2013

Cárcere

Postagem original do dia 02/11/11


           Os teus dedos se revolvem contra a minha garganta ardente
           No mais puro dos enlaços, 

           Nua e crua presa em teus braços.
           Resguardando-me com os olhos de um animal suspeito
           Na redoma inatingível dos desejos mais urgentes.


Resistências


Resisto aos teus descasos
As euforias se desgastam 
entre os dedos: pesos de papel.
Se entre nós há decréscimo, 
em mim silêncio
E já não há quem ouse ultrapassar 
as fronteiras erguidas entre nós dois.
Aqui - território proibido
Firme redoma que contém as dores
Malícias e invejas que se interligam
Por nossos corpos porosos.
Resisto aos teus silêncios
Acolho-os com os dedos magros
Eu mesmo bicho silencioso
Desde o nascimento
Arisco já no ventre
Com unhas de carne mole
Me encaixo nos teus moldes
Como o ser mais primitivo.
Não te quero - declaro.
Desconcerto todas as barreiras
Bamboleio em tenras comoções
Não te quero, e já não minto
Pois de fato só existo
Quando em ti não estou contido.
Meu verso só é certo
Se não traça as linhas
De teu corpo túrgido; 
E a poesia, composta de tênue matéria
Jamais será a mesma. 

06/04/2013

Invólucros


Nesses corpos mundanos
Meus olhos descansam
Perfuram e alcançam
A nódoa que pulsa; 
Sob os tecidos
Grossos ou finos
A nudez lateja
Se encerrando em si.
Sugo dos corpos
Veias e fibras
Lendas, mentiras
Mãos que acalentam.
E desses corpos
Malditos
Profanos
Não há toque que me desfaça
Mão que liberte
Represas e rimas.

Meu corpo se fecha
Meus olhos se abrem
Sou pura sombra
Profundo desejo
Da alma que fala
Da carne que pulsa
Do sangue que escorre.
[De tudo que nasce
da nossa
nudez].


29/03/2013

Divagação marítima


a alma freme no horizonte: não há nada. o céu se mescla ao mar e o mar se mescla ao céu e a terra se torna fina e os olhos se fecham ao o vento e o vento invade a pele e viola a carne e rompe os nervos. sob o corpo, areia molhada - grãos de sal, graúdos, nos mamilos, nos pelos finos, entre os dedos enrugados, perdendo-se nos contornos. a alma freme no horizonte: não há nada. violáceas brilham no céu, cataclismos ao meu redor. não abro os olhos. ouço os passos ao longe, não é ninguém. quem virá, quem virá? esse lugar não tem nome, anônimo país, fronteira de ninguém. quando os olhos se fecham, o universo evanesce; diminui até tornar-se um grande vão que me consome. a alma freme no horizonte: não há nada. depois as formas voltam, assumem-se diante dos olhos, incertas, ausentes de si. árvores mortas plantadas na areia, montanhas recaídas no céu, ramos quebrados por passos pesados. agora os olhos estão fechados; o mundo inexiste - pouco a pouco, a maresia desgasta os contornos e a terra firme é fragilizada, o mar rufa, o céu tremeluz. pouco a pouco a maresia desgasta meus contornos; da pele escapa o sangue fino, os órgãos pulsantes, a alma aflita. tudo se mistura em tons de rubro, bege, azul - eu e o mundo, pele e sangue, mar e areia. estamos de volta ao caos. 

a alma freme no horizonte: não há nada.


24/03/2013

Das faces


Todos os rostos se unem
Num bolo de tinta
Amarelo, azul
Violeta e anil.
Todos os rostos
Dia após dia
Dobram-se
Apagam-se
E tornam-se
 Um. 
Transbordando
Dos contornos
Transtornando
A comoção.
Todos os rostos
Do dia a dia
Ao fim do dia
Não se serão.


19/03/2013

Sob o não dito


sob toda confissão
permanece inviolável
o que a palavra não alcança;
descansando entre 
as veias de um verbo 
a escuridão que a poesia
não ilumina.
e há ainda quem tente escutar
a voz de um verso
quando seu mistério
só nasce em silêncio.


14/03/2013

Excertos


[os demônios que enfrento
sozinho
morrem sob o palato dos dias;
entretanto, escuridão
e não há quem diga
que entre o dobrar dos sinos
e o cumprimento 
na portaria
morri cem vezes.]

[a palavra sedimenta em mim:
silêncio.
já não há mão que trinque.]

[e se o sol nasce e a lua cala e as nuvens evanescem 
é sinal de novo dia?]

[a Esperança pousa na mão
áspera, verde como folha.
depois de um dia, esmagada;
a seiva escorre
entre os dedos.
o que sobra é a carcaça
largada na terra.]

[deixem aqui uma primazia
uma palavra bonita
a esse pobre diabo!
que vos observa com olhos baixos
preparado pra queda final.]


25/02/2013

 Ao fim do dia


ainda bem que lá fora o mundo continua vivo e inerte às nossas lamúrias. ainda bem que os noticiários contam os mesmos fatos e os jornais se repetem com mesma argúcia. ainda bem que ao fim do dia e ao fim do choro, ao fim do grito e da angústia, o universo permanece firme como a ponta de um compasso no papel. os ônibus passam, lotam e se atrasam, seguindo a mesma rota dia após dia: indiferentes à labuta; indiferentes à choraria. o que há de certo para mim é o "lá fora", pois depois da escuridão as ruas continuam as mesmas. ainda bem.


[que loucura seria

o mundo aos nossos pés
ciente de nós!]


19/02/2013

Nouvelle Vague


agora que os passos se calam e a luz se revela no céu, vejo teu rosto. rimos como dois amantes, compartilhamos o silêncio, arquitetamos um futuro divinal. você está sujo de tinta - vermelho escorrendo dos dentes, azul sob as unhas cortadas, a sola dos pés em magenta - e eu permaneço entre tons monocromáticos, esquálida e descolorida esperando teu sopro de vida. meus dedos ágeis no piano; minha voz entoando um hino de 1950. você ri do meu tom desafinado. por trás desse riso rubro e desse rosto branco, descansa aquilo que nos une. isso não será quebrado, Pierrot - nunca, nunquinha - isso não será rompido. nem de cinquenta anos pra lá, nem no fervilhar das estações. compartilhamos os mesmos gritos. a sala é quente - lá fora o trompete, o cinema antigo. 

- um dia seremos como Liv e Ingmar. - declaro. 

e você ri esse riso rouco; te sorrio meu sorriso pontual. após um breve silêncio, rimos e rimos e rimos até que a noite caia, a música cesse e a tinta seque. pois agora descansamos - eu Anna Karina, você Godard.


11/02/2013


Mesmo quando grito: silêncio. Por trás de tudo, mera distração de mim. Eu quero estar sem fôlego no mais violento dos mares, atracado entre ondas selvagens, levitando sob a correnteza. Eu quero os pés calejados de fuga, pele rasgada por espinhos, garganta entalada com areia. Quero efervescência, ausência de cadência. Na noite mais solitária: incandescência. O perder-se mais uma vez; letargia de dentro pra fora. Achar-se e resgatar-se, apesar de. Esquecer-se do nome, queimar o papiro, rir-se, ir-se... Diz-se: Foi-se! Mesmo quando os pés atropelarem os passos e os passos atropelarem os pés: continuar. Foi-se! O casulo enegrecido jogado na areia. O corpo ausente, perdido. Por trás da pressa, mera distração de mim. Afaste os braços - eu disse - não me segure, deixe-me ir. Na roda viva corro sobre o abismo. Se parar: cair.


31/01/2013



[eu não sei o que há sobre o verão que me deixa melancólico. são os tons, são as cores; é o mundo, é o movimento; é fevereiro logo aí despontando mais uma vez; são os sussurros que ouço entre um e outro transeunte; o murmúrio que diz: lá se vão os mesmos dias, novamente a mesma hora. o universo se abre como uma flor, rasteja da escuridão, exibe-se mais uma vez. aqui está a grande avenida, as árvores, a moça com lábios finos; aqui estou eu. lá está você, lá estão as coisas que temo. mais uma vez, o seu veredito: elas não são reais. a luz do dia dissolve o contorno das sombras. os dias são mais longos, a existência mais incerta - é o que me angustia sobre o verão.]