28/10/2012

Aforismo IV



O que há de perpétuo em nós é a palavra. Com sua grandeza monumental, ergue-se entre os séculos e traz à tona a adormecida evidência do que já fomos. 


25/10/2012

Mnesis

                            

Ela me olha. As mais doces ancestralidades desabam sobre o seu rosto como delicadas pétalas. Os olhos desviam, se fecham ao toque, arredios, ocultando séculos ininteligíveis e anos trêmulos descansados sob a retina envelhecida. As peles estão cada vez mais finas, rasgáveis e espectrais como seda, puídas pelo tempo. Dos poros, o aroma de ausência e abandono, daquilo que as palavras não abarcam sem deterioração e que só o silêncio, em seus incabíveis vácuos, pode guardar.
Olhos esbranquiçados recaem sobre o vazio e enxergam a remota e intransponível lembrança: O rio drenado daquela cidade continua a fluir pela memória, levando consigo corpos putrefatos e carcaças de peixes (sob a pele, carne cinzenta; sobre o toque, fino papel). A grama cresce ao redor de pedras e quinas (Agora invade a casa, dona! Não lhe disseram? Flores rupestres escalam a varanda e mostram seus rostos recém-nascidos ao mundo). A sala está vazia e empoeirada, o papel de parede desmancha e cala seculares lamentos impregnados na tinta.
 E a vizinhança, sobrevive? Como andam as antigas faces, os falatórios intermináveis? O sangue bruto ainda corre  nas veias pulsantes dessa cidade? (A ventania arrasta árvores secas, desmancha a madeira puída, se apossa de cadáveres abandonados à própria sorte. Monstros despertam de sua mítica existência para levar o que restou; a violência das águas acalma antigas comoções daqueles que já se foram. Morte sob os lençóis tremeluzentes.)
 Dona Maria está viva? Lembro de suas feições delicadas, de sua quietude contida, do olhar doce e reprimido (Ela ainda existe, é sabido, mas a tênue linha de sua existência está porosa. As memórias se sobrepõem em busca de um sentido. Escapando da inevitável senilidade, procuram uma linguagem que nos caiba e se deparam com um lúgubre vazio: já não há). 
 Envolta em toda a estranheza do passado, volta a me olhar. Está desconcertada com a ululante realidade que se estende sobre as lembranças de tom sépia como corpo parasitário. Um sorriso sutil se apossa dos lábios finos e envelhecidos e minhas mãos juvenis pousam sobre as suas, ossudas e manchadas, calejadas pelo tempo.
 Questiono-a em silêncio (nos questionamos em silêncio sem saber): O passado permanece real? Tão abstrato e imaculado, resiste ao intermitente choque do hoje? Não há resposta entre os infinitos traços de seu rosto – marcas de outros dias. Ela não me escuta. 
      Volta a perscrutar um ou outro detalhe até que se perca, rastejando novamente ao caos inerente de cada um. Como um bebê, tenta resgatar a tranquilidade estancada no útero materno: essência mais bruta que nos forma. Já não posso puxá-la de volta. Sem retorno e sem saída, o âmago é nossa irreversível prisão. 
       Súbita, com toda a sua doçura, volta a me falar sobre os tempos de outrem. Arranca-os vívidos do canto esquálido da memória (com-toda-a-sua-loucura). Eu enxergo os anos e os séculos, escuto as ensurdecidas vozes e vejo silhuetas desfocadas de desconhecidos entre os espaçamentos de suas palavras. Imagens intraduzíveis, mas pulsantes, feitas da mesma matéria que forma os sonhos.
Vejo-a desabrochar como uma flor. Em seus oitenta e quatro anos, cede o que, entre os meus dedos, sempre escapou; aquilo que incansavelmente tento resgatar do silencioso e antigo vazio que os tempos habitam: vida. 



22/10/2012

Do(i)s que não se fazem inteiros


E é da tua natureza que nascem as sedes que me preenchem os traços, as mãos que sombreiam os dias, a desordeira dança de quem segue a melodia instintual. É de ti que sai toda voz que tremeluz a paz, toda a ignomínia que ensurdece os meus silenciosos apelos. Com um mero toque, te faço represa contida. A minha confissão é o nosso substrato; o estranho vazio interposto entre uma palavra e outra; o arranhar de um bicho selvagem e amordaçado, encarcerado no cimento. Que somos nós, senão a sobra de algo maior? Quando te mato, sei. Cravo meus dentes na tua carne oca, enfio minha unha na tua veia viçosa: e sei. Meu amor, não se afobe, é da minha natureza  que nasce essa ira de bicho ancestral, todo envolto em enegrecidos pecados e irascíveis demônios. Sussurro no teu ouvido: Peça o que não se pode ter, almeje o que já não existe, tateie o escuro em busca da palavra. A palavra não emerge. O vazio é a única voz que se pode ouvir. A voz mais fiel. Nem todas as nossas rezas silenciosas transbordam um desejo menos cru que a voz do silêncio. A voz da ausência. E, ainda assim, não nos sabemos. O que basta é escutar a própria voz. 




08/10/2012

Sobre os desconhecidos



Teus olhos primaveris delatam a doçura que não foi ensinada; transbordam o delicado dom de existir. Devo invejar teus passos firmes e tenras palavras? Há sempre a resistência para não desmanchar dentro desse abraço tão seguro que até recoloca a alma nos esquálidos eixos; há sempre um olhar esganiçado que tenta apreender os teus mais seguros atos - em meu corpo, a mais desastrada imitação. Quantas dores nos separam através das frias conversas da rotina? Quantos universos se comprimem, leitosos e esfumaçados, entre um e outro "bom dia"? 



02/10/2012

O que o silêncio nos deu


A sede pelo que não se retém. 
Anônimas e gritantes ausências.

O vazio eclode no lívido enlevo
Do susto de saber-se existência.  


26/09/2012

Maria (e-outras-tantas-dores)



Maria tem nos olhos essa ausência que ninguém percebe. Só se torna real quando refletida no vazio. O espelho está na ponta da cabeceira e uma brisa qualquer pode derrubá-lo - em breve, será pedaços de antigos séculos eternizados no rio fervente da memória. Há nos gestos dela uma tênue agressividade. Por trás do riso nervoso, a denúncia de que vive à beira da eclosão - pode trincar a qualquer momento, mas continua escapando dos braços mundanos e esperando pela queda livre, conformada. Não sabe que sempre continuará com um pé à beira do precipício, mas nunca haverá a queda. O que há por baixo dos pés é solo firme, só não pode senti-lo. Maria, tão humana e receosa, teme encarar a Vida de frente - dama cruel de olhos dionisíacos e mãos sorrateiras que emergem da penumbra para arrastá-la ao mistério de se ser. 


31/08/2012

Mamãe

A carcaça escorre da banheira nesse domingo empoeirado
Dona vizinha há de perguntar 
que cheiro é esse 
A uma hora dessas, meu senhor?
Minha língua lambe o ventre intumescido 
Em busca do ser primário
E já não há mais nem pranto
Nem gozo
Nem canto.
Mamãe, não se engane
Meu choro é por dores mais antigas
Se te agarro assim tão fortemente é porque sei:
Cada parte tua há de se desmanchar 
Entre os meus braços
[Pele descolada 
lábios roxos 
dedos tortos
narinas tapadas 
algodão 
flores de velório
sobre os seios virgens 
braços murchos
cruzados em crença divinal]
É domingo, o sol não desce
E as cores de 1996 
Voltam por trás dos olhos fechados
Edifícios tortos, árvores descascadas, outono inexistente
Em nossa cidade de verão eternizado.
Caminhamos entre ruas tão antigas 
E de mãos dadas
Nesse sonho tão nosso 
Que já nem se sabe de quem é.
No fim, só hei de sentir o vazio entre os dedos
E teu corpo vai virar folha seca
Invólucro de veias inchadas na banheira
Despejou o vidro todo, mulher?
O vidro todo, sim, senhor!
E junto dele o sangue, nosso sangue...
Só pra que não haja mais saída.
Por que te afliges, mulher?
E, quanto a isso, eu sei que não há resposta
Hei de encarar o silêncio como um velho amigo
Pequena recordação do que nos tornamos.
Eu é que balanço esse berço vazio
Caminho pelos cômodos silenciosos da casa
E digo que, apesar de tudo, sempre foi assim.
Nossa morte viria cedo ou tarde
E, entre tantas fatalidades
Sobrou nem espaço para o depois.
Agora arrasto esse corpo murcho 
Para o canto mais quente da sala
Dona vizinha há de vir e perguntar:
e com essa moça, o que aconteceu
por onde ela esteve
por todo esse tempo, meu senhor?

25/08/2012

Emergi das sombras


Te atiço leve: 
O que é de nós se toda palavra cava crateras
E mesmo o silêncio 
Evoca surdas-mudas vozes ancestrais?
O que é desse meu eu fugaz e insatisfeito
Rompido e incandescente
Sob fuga divinal?  
O pé sangrento se arrasta na areia
Correntes fechadas nos pulsos
Sangram os pecados 
De séculos mais doces.
A minha palavra mais arredia ninguém conhece
E do alto da insanidade só hei de dizer:
Minha alma é suja. 



11/08/2012

Entre o sacro e o profano


A corda bamba 
rompe sobre o abismo
E a loucura dos santos 
consome a modorra
De nosso peito mofado. 


08/08/2012

A via da morte

I

Quem é ela 
Que me escala o corpo 
Com unhas afiadas
E me escancara o peito 
Só para lamber 
A veia viçosa
Desse coração delgado?


II

A tua carcaça continua amarrada ao meu tornozelo 
(Nem o vento do meio-dia espanta o cheiro de morte desse lugar)




III

                                     É esse o nosso destino inevitável?
Osso por osso
Pele por pele
A carne alojada 
Entre os dentes da fera.
Verme que percorre 
A via frágil do corpo
Quando o corpo é pouco menos
Que pele por pele
Osso por osso





29/07/2012

Fragmento perdido sobre Rosa II



[R., as pessoas continuam me parando na avenida da Catedral só pra me perguntar sobre você. Eu quase que as olho, quase que as toco, quase que simplesmente não entendo bem essas palavras tortas, unidas e desunidas numa só afirmação. Aí eu quase que rio, quase que choro, mas a verdade é que permaneço plácido procurando já não fugir das estribeiras do silêncio. Não digo nada, vê? Continuo andando como se fossem esses pedestres nada mais que proeminentes reminiscências - assim como eu sei que você sabe que são; nós dois sabemos, quase não sabendo, que tudo o que nos cerca é incrustado de passado. Rosa, eu não os culpo: ninguém enxerga esse luto úmido e mofado que ronrona no vazio dos meus pulmões; ninguém enxerga esse meu eu silencioso já nem interessado em liberdade, porque até liberdade virou essa matéria ausente de beleza e poesia - liberdade que quase não se é, mas se sendo dolorosamente, sabe?]



23/07/2012

Dias além

os transeuntes
com seus olhares transversais
me desafiam
a te varrer dessas venezianas
envelhecidas e empoeiradas.
meu olhar veste a máscara
do orgulho intrincado
contendo o sangue da ferida aberta
por baixo do pano vermelho
encharcado.
tua ausência continua
na ponta da minha língua
e teu nome me atravessa a fala
como um ato falho.
(parapráxis que nos desune)
as avenidas me desafiam
a atravessar ruelas 
quietas e sombrias 
que ocultam
teu rosto bojudo
por trás do cimento.
ainda assim
o que me sobra é
a estranha certeza de que
já caminhei por outros lugares
e que agora caminho
por lugar nenhum.
uma velha senhora para
e me agarra 
a mão.
esconde 
por trás de seus olhinhos de corvo
prelúdios do que nos tornamos
más notícias 
na rispidez da pele.
me avisa de tua partida
como se fosse surpresa
e o que me sobra 
é o esgar silencioso.
a bossa nova me desafia
a escutar tua voz 
oculta e trôpega
por trás dos chiados do século XX
mas agora eu já conheço nossa sina.
os transeuntes me lançam esse olhar miúdo
desafiando-me a derramar tuas últimas gotas
no café da tarde 
ou sorver-te por inteiro
até que volte ao rio fervente
de onde ressuscitamos. 

18/07/2012

Entre os extremos



[Aguardo no morno pendendo entre os dois extremos: O excesso doloroso que me varra inteiramente para fora de mim ou o caminho quieto e silencioso mascarado por todas as boas intenções da cura. Será que a palavra salva? Sinto que, a cada dia, o morno esfria - e lentamente o limbo se abre, abismos se rasgam, o silêncio supura como uma vil recordação. Incômodo, eu sei, mas a verdade acaba por retornar (como todas as coisas pequenas plantadas nos átrios do peito que, súbitas, crescem e atravessam a própria fala): Penso que a morte é necessária. Antes da luz escassa que tão incerta pende no horizonte, sob as hastes divinais, a morte é necessária. E quantas vezes já não morri?, me pergunto sob a sombra da tolice de pouca idade e amarras que me pertencem como se de antigas existências. Penso que nenhuma. Todo o extremo me falta, de vida ou morte. Até meu mistério já não é mais assim tão confiável, misturando-se a todas às coisas escuras e nocivas que alimentam minha alma, como velhas certezas que agora desmoronam em efeito dominó. 


/Que toda a loucura cotidiana me assassine, mas que não haja a morte pela inanição de vida/


(como uma criança serena e ainda esperançosa a apalpar o escuro - fitando do  quarto andar o asfalto quente - espero uma ressurreição que, fugidia, pousa sobre o fôlego fraco.) 



06/07/2012

Cora (ou rascunho clandestino)



cora, tão cedo você acorda
puxando do meu silêncio
o vernáculo seco.
não há mais transbordar
em nossos corações
e, cora, apesar de tudo
somos os mesmos
do dia primeiro de julho
quando todas as coisas
resolveram, por você
brotar da guimba do cigarro.


cora, o que seríamos
se não fossem os números a te desvendar
e as letras a me puxarem
de meu eterno silêncio?
           seríamos assim como dois
           pela metade solta de uma roda-gigante
                               (nunca a se esbarrar, nunca a se encontrar
                               escorregadios entre os parênteses do mundo)


       moça, um dia me conte seus segredos
       mesmo que eles te custem 
       o estraçalhar de um nervo
        
       


    ou quiçá o simples evanescer de um encanto 
    que te faz tão sólida pelas manhãs invernais. 



05/07/2012

Em sanidade



Servil, imunda, rasgada
Por baixo da saia
A marca do cigarro
E entre as pernas
A letra escarlate que nos une.
Assassina! De todo o meu pejo
E mais vis desejos
Incita como toureira espanhola
Com seu beijo rubro e borrado
Tudo o que se descolore em mim.
Assassina! Como se não me bastassem os dias
E as vis sobrevivências 
Entre os comas da rotina
Agora a maresia de seu toque
Desgasta a estribeira 
De minha palavra arredia.
Assassina! Nunca é bastante
Esse meu corpo retalhado
Ou o grito entre lençóis. 
Na minha carne, enfia a unha afiada
Vermelha e descascada
Até que minhas feras despertem
Da escuridão que as guarda.
"Compre-me um cigarro", ela diz
"Pois a manhã já chega
E em breve seremos só caos 
Úmidos e áridos
Entre os lençóis.
O dia nos abrigará, amor
E nem perceberá toda a vergonha 
Que nos escorre.
E o que é que seriam de todos os demônios
Se não fôssemos nós 
A carne rubra que os alimenta?"
E aí ela silencia 
Como se assim fosse permanecer
Pelo resto dos anos e séculos e dias
E como se por trás da roupa limpa
E mordaça firme
Não guardasse as fúrias
Que nos tecem. 
Na sombra da noite
Nua de todas as nuvens
Despida da máscara de pinos firmes
Sussurra que, no fundo, o que quer é a dor
E que quanto mais firme a mão
Mais viva a alma.
Ah! Tão árida...
Pede, inquieta, que eu apague a luz da vela 
Em seu peito
E eu
Servil, imundo e rasgado
Obedeço
Até que na escuridão 
Só sobre nossa verdade anil
A brilhar entre os seus seios. 

01/07/2012

Lei dos abismos


O passo ao abismo não se reverte
A mão que se estende não vai recuar
De todos os corpos e valas profundas
Palavra não dita é o que há de sobrar.


28/06/2012

O nascimento de R. (Anadyomene)



Encontrei Rosa nascendo na areia
Sob meus pés
Os fios vermelhos de seu cabelo
Perdidos
Na espuma do mar.



23/06/2012

[Página trinta e um]



[O meu silêncio se torna cada vez mais labiríntico; as palavras me são arrancadas sem que eu as diga e as conclusões dadas sem meu protesto. Deve ser assim mesmo. É o preço que se paga por uma ou outra questão respondida. A verdade é que, em questão de horas ou minutos, eu me desvendei por inteiro, redobrando-me e enlaçando-me em mil caminhos que sempre levavam a outros, em mil e uma epifanias que, na manhã seguinte, já não existiam mais. Acima de tudo, é efêmero, mas plenamente efetivo. Antes o silêncio só me trazia lágrimas aos olhos e entregava-me ao sono rapidamente, mas agora traz mais vozes, mais gritos, ânsias que não me permitem o sono, como se o tempo fosse pequeno ou vasto demais para alguém como eu. Até mesmo esperanças surgem, não hei de mentir; sorrisos súbitos que se tornam inexistentes à luz do dia, dando lugar ao mesmo mundo de tom carmesim - sonhos abarrotados em lençóis, escondidos sob o travesseiro, adormecidos pelo fluxo de vida solta. A melodia pesada, de vozes contrastantes, fala por mim: Acordei morto nessa manhã.]



07/06/2012

Agnes


Que me percorra o corpo com os lábios
Jovens e virginais
Rosados
Carregando o antigo peso Dela
No movimento circular da língua.
A sabedoria dos olhos
Eclipsada pelo verde ametista.
A alma antiga e secular
Presa no corpo de menina.
Deixe que minhas mãos acariciem e tomem
Os seios pequenos ainda em formação
Não mais que duas flores sedosas
Rosadas
Cheirosas
E sinta o mesmo calor de antes.
Ela voltou no tom vermelho dos cabelos
Escondida nos cachos
Entre os poros de mármore da pele.
Vejo, por trás desses treze anos, treze a mais
E por trás do sexo juvenil a mesma libido
                                              [de quinze anos atrás.


03/06/2012

Entre as quatro paredes descascadas

nossas conversas estão frias
servidas à mesa
e as comoções adormecidas
na sala de estar.


nós, já não mais rutilantes
ululantes; mas insípidos 
como o almoço
servido às três


atados por circunlóquios
e clandestinas vontades
quimeras adormecidas
e meias verdades.

02/06/2012

Vargtimmen

Estarei para sempre aprisionado na hora vazia
Oculta entre os três ponteiros do relógio.
O oco minuto em que as cortinas se fecham
E as sombras escorrem
De um silencioso crepúsculo.
A existência estará encarcerada
Na hora do lobo
Onde o grito corta a noite
Em plenilúnio
E cada dia bonito 
Coberto pela fina poeira
Que me veste os olhos.
Vejo, em meus sonhos, as ondas negras
Ricocheteando o céu
O homem vestido de corvo
E minha fuga silenciosa
Entre a vermelha espuma do mar.
Sei que um dia eles irão me alcançar
Os braços pálidos e dedos frios
Sussurros cálidos
Arrastando-me em silêncio
À mesa fria
Onde irão me devorar.

26/04/2012

Sepulcro caiado

os passos do demônio
na sala vazia
as vozes que sussurram
verdades antigas.
os cílios pesam
desfazem-se os ossos
feitos de poeira
todos os órgãos.
sou-me inteiro?
se por cima da ferida há um pano
bonito e opaco
e por baixo do véu
cada verme que me corrói
cada mão escura que me empurra
para o breu do silêncio.

06/04/2012

Senhorita V.



Bolsos cheios d’água
Olhos oceânicos
Violentos como a luz do dia.
Lábios pequenos
Que se afogam na tintura facial
Em uma mudez aparente.
Se fosse muda, eu digo
V. seria puro desconforto
Há algo que sempre quer escapar
                         [por seus poros
Palavras e palavras, eu sei
Novas, velhas e inventadas
Verdades que tornam cada mistério do mundo
Menos interessante
Até que o desgaste todo...
Faça com que seja um móvel velho e empoeirado
E haja apenas a voz de V. atravessando
Cada canto mofado
Sua voz presa nas gavetas e na estante
Dizendo que existe um abismo abaixo dos pés
Ou acima do peito
Ou em algum desses cantos contíguos
Não saberia dizer
Nunca foi médica para saber
Se é que existe medicina para isso.
V. nunca soube das próprias verdades
Seria menos poética se soubesse
Seria mais matemática
Mais fria, eu diria, mais safa.
Sobreviveria mais facilmente, é fato
Ainda assim, não perderia a beleza
Seria uma criaturinha delicada
Que aceitava a vida sem fazer poema.
Daí, teria um nome, faria parte da multidão
Os bolsos estariam novamente vazios
E os olhos negros, calmos
Estoica
O que seria V. se fosse real?
Aquela velha senhora que se lamenta da vida
Chorando de tempos em tempos
Quase acidentalmente
Ou a aluna calada que carrega um mistério
                                          [nas costas?
V. teria um nome
Poderia ser Vina ou Victoria
Qualquer um desses titubeantes.
Poderia ser também uma flor
Que nasce entre as rachaduras da parede
Sem que ninguém perceba a beleza no ato.
Às vezes me vejo tentando encontrá-la
Escondida num cantinho, toda molhada
Como se saída do oceano
Ou de uma chuva torrencial lá fora
Toda pálida como uma estátua de cera
Recém-feita
Que está derretendo e tem urgência entre os atos.
Eu sei que ela adora dias de chuva
Mas detesta o inverno
Gosta dos dias de chuva entre os minutos
                           [do verão mais quente
Aí há a eventualidade do tempo
A magia estranha do universo
Correndo como laços
Um sobre o outro, de várias cores
Senhorita V. enxerga o mundo assim.
Sei que nunca a encontrarei
Não tão longe do papel em branco
Estendendo-me duas mãos juntas
Cheias de areia molhada com conchinhas.
Ainda falará dos mesmos assuntos
Reclamará da mesma questão:
Há um abismo que me persegue.
V., talvez, um dia saiba:
O abismo é não mais que uma extensão
                                [dos próprios pés
Como um terceiro passo no silêncio.
Estamos sempre à beira dele, é verdade.
Mas há a salvação para almas submersas
Como as nossas.
A espera:
Pelo vento fugaz
Pela brisa chuvosa
Que algum dia nos empurrará. 


16/03/2012

Recôndito

Não se deixe ir, é mero engano
O que se aproxima morre aos poucos
Segure minha mão, mas não parta comigo
O destino é nulo; coberto por breu.
Não ouça minha voz
Arranque-me o grito.

13/03/2012

Um dia entre parênteses



(por trás do estranho silêncio de uma tarde de fevereiro há a música agitada pairando no ar: quase bossa nova de outros tempos. basta rasgar um pouquinho o tênue tecido que separa os dias para que se possa enxergar as cores de 1923. eu sei que nossos segredos se dispersaram pelo tempo. até mesmo a quietude é como uma fina crosta de poeira que me cobre os órgãos. quero penetrar cada detalhe desse universo, descobrir os doces séculos que se escondem por trás de um muro velho ou na sombra dos gerânios).



Sobre a inquietação



Dizem que a morte é a mais irreversível das esperas 
Mas o que perdura na onírica superfície de meus dias
É o inquieto aguardar pela vida:
o arroxeado dos dedos (de um recém nascido) 
o choro condenado (de quem prova a existência)
um parto silencioso (que não me arranque a voz).



19/02/2012

O vazio entre nós



Se me cego a cada vívido amor teu, é para tornar inata tua existência dentro de mim. Até que eu e o universo entremos novamente em comunhão e eu possa contemplá-lo como é e não como você me disse que era; até que eu possa sentir os gostos como são, não como você os provou; até que seja verão e cada folha seca deixada nos corredores, caindo das tuas roupas, desmanchem-se em tons de bronze que me lembra tua pele: um tecido translúcido e rasgado.
Mas até onde suporto exorcizar-te de mim? Extraviar-te de meus dias para os dias de outrem, soprar-te para um canto escuro e frio da cozinha enquanto beberico o chá aromático e até mesmo o aroma dele não tenha sabor nenhum? A mesa sempre estará pronta para dois, o pano antigo sempre terá o curioso cheiro do teu perfume diluído em gotículas de suor. Diga-me: até onde posso me ser, completamente, se até a paz é desconcertada?
Vida e morte sempre me pareceram tão certas, mas agora é como se a linha tenaz que as mantivessem fosse lentamente apagada, deixando pequenas brechas que as misturam como sal e água. 
Até onde se assassina a vontade de viver e até onde o que está morto insiste em existir? Até onde nossos dias foram e até onde passaram a ser uma tentativa? Até onde terminamos e começamos dentro de nós mesmos?
Não me acorde com o toque, mas com a voz; não com a distante presença que se confunde a uma lembrança real demais, mas com a solidez. É que ainda me sobram medos e até mesmo a natureza deles já não sei definir: até que ponto são meus e até que ponto foram teus? É assim mesmo que a alma envelhece, alimentando-se de receios que não nos pertencem, mas surgem como feridas que nunca cicatrizaram? Ainda temo a escuridão e as terríveis formas que se assumem diante dos meus olhos – rostos que se dissipam à luz do dia. Ouço passos na escada, sinto a cabeça sobre meus ombros, abro os olhos e contemplo uma antiga solidão.
Minha vida disfarça esse indizível vazio com antigas ausências, preenche conversas noturnas com vozes que já se foram e permanecem a ecoar. Até mesmo a saudade se torna um sentimento vil, enganosamente tenaz.
Digo isso porque no momento em que você se tornar real, atravessando as paredes ou me surpreendendo por baixo dos lençóis, a saudade será mais uma fuga do que nós nos tornamos. Um desespero sedento para fazer-te distante e voltar a relembrar de épocas que já foram boas. Como se, em outros tempos, houvéssemos sido genuínos – e o que veio depois foi só um grande esforço para a sobrevivência.
Hoje, sei mais dos meus fantasmas. Dos barulhos que me silenciam, dos antigos pedaços que suspiro, da fina crosta de poeira que me cobre, da luz que atravessa o vidro diáfano e revela os móveis velhos do quarto contíguo. 
       Todo rosto é uma máscara, um vazio. E mesmo você será senão parte da matéria viscosa que escorre entre meus dias. Um pedaço de ausência que respiro. Adormecerei qualquer dia desses sem lembrar-me do teu nome ou das tuas feições. Irei te sentir do outro lado da parede, bebericando almas, e dizer que é só o vento ou qualquer um desses fantasmas que se lamuriam de existências cruelmente interrompidas. 
      Nunca poderei dizer, porém, que o leve baque na cama ou  o travesseiro amassado são senão uma impressão passageira; se aquela voz suave e indefinível foi senão parte de um sonho que se interpôs na realidade. 
       O outono algum dia vai passar e até mesmo as coisas esfumaçadas que existem entre nós - fazendo-nos existir em um ciclo vicioso sem respostas – tomarão alguma forma. 

08/02/2012

Inconcluso

É sabido que o agora só se digere com o depois
Hei de esperar, portanto, que daqui a algum tempo
as coisas façam sentido?
Mesmo que a pressa me impeça
de não querer tudo agora?
Mão por mão, palmo por palmo...
O que me diz que sobreviverei 
Para olhar ao que já se foi?
O que me dá a certeza
De que minha própria existência
Envelhecerá de forma boa em mim?
Não espero que entenda
Mas a vida não me habita e sim me hospeda
Deixando portas abertas, para ir e vir
Mesmo que já não exista coragem de partir. 
As coisas são assim, eu sei: 
Pode não haver a ousadia do abandono
Mas há sempre o desejo 
E o desejo é como veneno à alma
Os detalhes se tornam mais azedos
A vida estraga um pouco, para ser honesto
A existência mofa...

28/01/2012

Por trás dos molares (ou Sussurros)

é assim, senhor, mas ninguém há de compreender
por trás do silêncio; dos olhos pequenos
brilhantes, infantes, sorridentes pupilas
só existem incansáveis gritos que me cortam


[agudos
como lâminas atravessando a seda da mais delicada
é assim, senhor, mas quem é que entende?
e, me diga, por que é que entenderiam?


cada um desses gritos clamando por fuga
me matam pouco a pouco, dia após dia
da funérea mortalha que cobre minh'alma
já não adianta clamar por justiça


a voz não chega à minha própria superfície
percorrendo a profundeza de dócil escuridão
padece sem força na garganta
espreita por trás dos molares


quem há de ouvir a súplica do silêncio contido e enxuto
senão a branca imensidão do papel surrado?
quem há de me olhar tempo o bastante para enxergar-me
pouco a pouco, gradual e todo errado? 

21/01/2012

Através da realidade

Já não se pode distinguir a tênue linha entre a melhoria e o agravamento. É verdade que, por muito tempo, consternei-me ao silêncio, criando a justa divisa entre eu e a vida. Se eu fosse uma cidadezinha, nesse tempo em branco em que vivi, não existiria no mapa. E, porém, é possível dizer que mesmo existindo pela metade, aprendi uma ou duas coisas sobre a vida – instantaneamente, comecei a enxergá-la como é. Como se antes fosse essa imagem distante, desfocada, e de repente, se tornasse mais nítida: traços surgindo onde antes não existiam e sombras se tornando mais escuras; poros e veias, como um rosto feio enxergado antes por olhos míopes agora sob a lente dos óculos. 
Constantemente, eu tento me convencer de que isso é uma dádiva – porque é só assim que se sobrevive. Tentando se convencer de que sanidade e realidade caminham de mãos dadas como velhas amigas e que tem algum fator comum além de sonoridade.  Eu digo, sussurro na leve brisa da vida, que tanta gente enlouquece por menos – então até que ponto eu estou são? Até que ponto a existência, as pessoas e até mesmo os detalhes, como as cores e contrastes, são vistos como são? 
Eu não sei – a verdade é que a realidade nunca existe plenamente senão numa utopia, numa definição, numa página de dicionário ou numa poesia metrificada. Até que ponto otimismo ou pessimismo definem uma rota ou um caminho, pouco hei de saber. Eu sei, eu sei: talvez esteja pensando demais, consumindo tudo o que me cerca de pensamentos. Alguém deveria ter a decência de me dizer que não se disseca nada – mais uma vez, há de se descobrir sozinho esses detalhes – porque, quanto mais se questiona a natureza das coisas, mais há o inevitável risco de compreendê-la. Até que haja um golpe final, seja ele qual for, e você já não seja o mesmo: tudo te torna mais amargo.
        Eu não sei, para ser bem franco. As coisas mudaram de um dia para o outro, de uma hora para a outra, de um minuto para o outro. Uma violenta ruptura, a quebra de uma parede que continha uma represa. O que sobra agora são só as poças de água parada e eu entre elas, afogado, afogando; De alguma forma, eu sinto que a minha própria vida foi roubada de mim, usurpada num suspiro, até só sobrar esses rumos caóticos, essas bifurcações, esses caminhos que nem sei porque segui. 
Sinto que, de certa forma, a ignorância seria mais leve - a banalidade de uma vida sem tantas questões. Eu tento me  convencer, porém, de que tudo é melhoria, e que há, sim, tais pequenos sacrifícios para se ser inteiro, tentando usurpar a esperança de onde já não existe mais. Mas até onde – diga-me – até onde vai a linha tênue entre o que é real e o que os olhos vêem?