sento-me para escrever sobre f.
e o que há para se dizer sobre
f. que já não tenha sido dito
ou que esteja constantemente
a se dizer e portanto já se é
sabido?
Marca de batom rosa no copo de café, roupa florida jogada no chão, cheiro de lavanda na borda do pano de mesa - ela está sempre a deixar para trás uma evidência de que aqui esteve, como se temesse ser arrastada para o vão das coisas esquecidas, descendo num espiral de ausências irresgatáveis. F. não sabemos se é prosa ou
poesia
com toda a sua vermelhidão e pele morena acanelada
cabelos que agora louros já foram
castanhos e arruivados
olhos de um negro maciço que ninguém
ousaria dizer já terem sido de profundo verde
lodoso como as águas daquele rio
em que um dia quase se afogou
mas essa é história para outra
ocasião.
f. está sempre a falar com incrível rapidez como se temesse a quietude pois a quietude diz nos impele a pensar e o pensar sobre o que não deve ser pensado envenena a alma e fala com tal urgência como se o tempo estivesse constantemente a lhe escorrer pelas mãos largas de ampulheta tal qual areia encerrada entre os dedos conta aos estranhos nas ruas sobre sua vida e suas dores tentando expressar com a verborragia o indizível e traiçoeiro vazio que espreita sob as costelas e ameaça criar forma romper vir ao mundo rastejar para fora de si na forma de um grito que estraçalharia suas cordas vocais o que f. não sabe é que vindas ao mundo as palavras tornam-se outras e traiçoeiramente se enveredam por outros caminhos criam outras verdades que por sorte não são menos genuínas do que a verdade que se quer entregar
- Sim, doutor, há uma dor aqui, aqui, aqui.
- Eu lamento, senhora, informar-lhe que para isso não há ainda medicina exata.
enquanto não, pílula atrás de pílula, copo atrás de copo: remédio pra curar o efeito colateral do remédio que curou a dor primeira. não sei o que será de mim depois de tanto. diabos!
(sai, f., vê se me deixa quieto com os meus demônios, enlaçado em meus vícios e silêncios. sei que teus olhos estão sempre a querer me salvar, retirar-me desse limbo em que me fecho, mas eu, como você, sou alma perdida. reside, entre nós, singular diferença: abarco a minha sina).
f. entretanto jamais perderá
a esperança de um novo renascer
dia após dia aos céus levantará
uma prece
pois crê
em verdades providenciais.
graças a deus: ao menos um de nós
ainda tem algo que lhes reste.
(Ande, dividiremos uma cerveja, nos cegaremos às efemeridades. Algum dia, quem sabe, nos fique uma esperança, rebarba qualquer, e nos abraçaremos sem dizer palavra, pois, no fim das contas, somos sempre nós dois a sobrar).