29/12/2015

o sagrado da carne


o sagrado da carne
é coisa que não se pondera:
há de se seguir
sem desdizer, sem desatar.  

estar e não fugir
seguir calado o instinto
assim persistir
urutau planando baixo.
sob as asas, delírios insensatos 
para que não te desarmem
para que não cresçam vastos.

desta vez
sei do tempo e da coragem
e nada há que me extravie
do caminho a ser seguido
traçado sobre tua carne.


10/12/2015

fragmento noturno


esta cidade
é boca rasgada
que arde 
e que jorra
que sangra 
e perdura
que grita 
e que chora.

sirenes ressoam
persisto e finjo:
não sei onde estou
não sei o que vejo
ou para onde vou.
é mais uma curva
um modo de ser:
tragar estes dias
sem eles viver. 


30/11/2015

rita não virá

rita não virá à meia-noite
como disse que viria
tire o vestido, descalce as botas
é outro dia e ela não chega
com os lábios flácidos
e seios plácidos
e tenros braços 
tangendo fugas
(meias-verdades descansadas no decote)

rita não vem e o aroma da lavanda
se mistura ao suor
não há cheiro pior que o do agora 
que vira memória 
estendida dos pés ao mundo lá fora.
esta espera põe qualquer um a pensar
que nem daqui a algum tempo
haverá modo de se enxergar as coisas
com mais clareza
e pendor

rita não veio e o que resta
é abraçar a sina de que
esta noite é o resto da minha vida
tiro o vestido, descalço as botas
de nada serve o batom vermelho
e derramar sorrisos, desejar ardores
ou os bares lá fora
pois rita não virá 
e tudo o que há são tamancos
esmagando bitucas de cigarro
globos brilhantes girando vazios
contra o negror do céu
e o romper da madrugada
que outrora tenro abraço
neste agora
me revolve com vazios

alívio é estar aqui
alívio é rita não vir. 

29/11/2015

  


todos os dias o mesmo
viver para ver
o fadado a ser visto
da mesma forma
sempre.

ando viciado nos aléns que os agoras me oferecem.


18/11/2015

matérias-mistas


[te vejo entre minhas pernas

quieto e compassivo
indiferente aos relógios sincronizados
que rompem ruidosos
no despontar d'outro dia.
lábios de rosada inquietude
garganta retesada
saliva transborda viscosa
por trás de um sorriso:
matérias-mistas.]



24/08/2015

faça um corte


faça um corte
na superfície de um dia bonito
e pela fresta deixe escorrer
a escuridão
contida sob os azuis
de longínquos céus de Agosto
oculta entre o verde-lamacento 
dos jambeiros
e no voo gracioso dos pardais.

a esperança dura
um cruzar de ruas
dois abraços flácidos
e três goles do café amargo
pela manhã.


01/08/2015

como contornar os dias


ensaios sobre o vazio
equilibrismo no meio-fio
três copos de água gelada
após trapézio entre abismos.

trinta e dois passos
até o outro lado
trezentos e sessenta e dois segundos
onde cabem os meus braços
minhas pernas
e meu coração.

eu não sei aonde os meus pés
vão me levar
mas hei de crer 
que jamais me trarão 
novamente
ao mesmo lugar.


26/07/2015

ventre vazio


você está se entranhando em mim - carne recente violada - você está se estreitando pelas frestas do meu corpo. parasita com espículas e garras. o dia está vindo mais uma vez. olha. estará mergulhando em mim quando os silêncios tremeluzirem e se afogando quando as profundezas alargarem. represa rompida. disseram que seria tão sujo? olhos virgens do mundo. ensurdeço com um trinco - bicho sensível. tranquei janelas e selei portas. trancado e selado. você me atravessa. os ossos são areia. a carne é névoa. está se fincando em mim no momento em que outro dia chega. sim. findará em mim. o dia chegará. repare: não há porta de saída. 1-2-3-4-5. contabilidade da loucura. minhas pupilas vibram indo para além do cimento e do amianto onde a escuridão é nova luz com suas estrelinhas-roxas-e-meteoros-passageiros do espaço sideral. está me dividindo em mil pedaços. me remontando com as peças fora do lugar. me retomando. bumerangue arremessado ao vazio. as coisas são assim e assim devem ser mas nada sinto de correto. não, não quero um deus que me ouça: verdades minhas violariam o paraíso. arranho tuas costas. limparei a pele morta sob as unhas como quem não sente. cheirarei meus dedos como quem procura. como quem não se importa, saberei. usarei os dentes. cantarolo na aurora da noite e adubo com lágrimas a carcaça das mariposas. estarei lá estou aqui estando em ti. restando em ti. tu estando em mim afunda. heterogêneos. no fundo do corpo. nos limites escuros. ofegante. te trago de volta. num tragar só. vai, engole (agite antes de beber eles dizem) ânimos calados. está chorando? você não para. sussurra e chora de volta. as escuridões que me mantém também são tuas. cravado em mim com toda a sujeira, com toda a maldade, com todo o pecado. há pecado? com a força e frieza de escorpião, cauda erguida. ao canto do quarto você rasteja sob a meia-luz. ainda que não esteja, para sempre persiste. quando não estiver será sombra. monstro no umbral da porta. arranhar sob a parede, passo sobre o gesso. você vai embora o choro cessa os nervos rompem. dentro em mim algo vacila. pardal adormecido nas vértebras. num ligeiro movimento (não-se-mova) escoa. insidiosa semente. me olha de dentro pra fora. arde nas vísceras: rasga-ventre. pele aderida à carne aderida à pele. é o que sobra. vago do ventre. retalhos de nervos atados. os meus olhos encontram os teus. tudo sobre isto é acidental. no abismo impenetrável dos corpos não há testemunha de acusação. queda livre completa e sem retorno. para sempre. 

18/07/2015

caos


o fio das horas conduz p'ra longe
quem há de me devolver a mim?


07/07/2015

já não há retorno?


1
Do que é feita a urgência de arremessar-se ao vago desse corpo? Como ser inteiro diante de ti? Estou a rodear descaminhos? O que me traz aqui?

2
Palavra lançada ao mundo é condenação: tolhida liberdade. Caminhemos de voz atada, anonimamente sobre a corda bamba.

3
Ater-se ao tempo é descontinuar-se 

enterro minhas mãos em ti
enterro minha boca em ti
meus pecados meus vícios
enterro meus pés em ti
por todas as frestas e portas abertas
estou a me insinuar consumir

já não há retorno


02/07/2015

Mãe


vamos clamar à Mãe calamidade
que desvele apatias ocultas
que rasgue a boca nociva
destrua nichos de ódio

Mãe, manda dilúvio que arraste incertezas
são tantas as friezas 
a nos apartar.
móveis sujos esquecidos deixados
puídos gretados na sala de estar.


o café amargo eu bebo
na ponta da mesa adormeço 
varejeiras revoam, aguardam
antecipam -

suspensa a iminência
do que nunca virá.

escuta
noticiário anuncia nova morte
ouvidos atentos - dessa vez quem sabe...
ora ao Pai, saúda teus orixás:
de incompletudes a goela está cheia.

meu bem, pedir a quem
 o que nos cabe fazer?
há muito desaprendi 
a deflorar silêncios
encerrados em si mesmos de tal modo
que jamais encontram solução.

penitência é recriar cenas retrasadas
forçar portas fechadas
ensaiar em palcos vazios
elegias a ninguém.

vamos clamar à Mãe a força 
p'ra derrubar pilares
quebrar correntes, abrir os mares
partir de terras estéreis
em que esperanças não nascem.

Mãe, envia a praga que expie
dê-me a coragem de deixar
este colo que há muito
não conforta.

breve desventura anônima



um modo de existir talvez seja: amar os lençóis manchados por fluidos de outros; deitar-se em meio ao papel puído dos jornais (quantos-anos-se-passaram-desde-que...?), aceitar o remorso da vida nunca vivida; virar parte de tudo que compõe dias ultrapassados. a hora-que-vem sentencia, o minuto que espreita é o carrasco. ainda fumará daqui a dez anos. ainda viverá, mas fulgor escoará. agora, mesmo, já não há beleza: os olhares vivazes se esfumaçam em indiferença; toques de antigos amantes entristeceram a carne e ensandeceram o aspecto. ao menos sobrará um resquício inviolável, requinte independente do sopro dos anos, para que digam com um sorriso conformado: um dia, sim, houve beleza. ainda há caprichos. tempo gasto diante do espelho rachado. não importa o tráfico e o rufar dos carros; não importa, não. ama a vida pois há de se aprender a amar a vida; há de se aprender a cegar-se diante dela. acatar os lábios frios de uma morte eventual; sobreviver aos comas da rotina; aos sustos de um ou outro cruzar com um estranho na escadaria. ao menos os instantes, breves como são, ainda guardam beleza particular, distorcida e difícil aos olhos. ao menos ainda há o pátio velho e fantasmagórico, os transeuntes, as ruas que se cruzam e desaguam, os ônibus lotados e terminais apinhados. ao menos ainda há. é suficiente?



22/06/2015

fragmentos II

3
há muito a se ter para que aqui eu permaneça
vazio, tolhido, colhendo santidades.
liberdade é coroa de espinhos
açoitados insistimos
apesar de.
a palavra bruta e indomesticável
retorna ao peito e abrasa.
4
(dizem que ando bebendo demais
fumando demais
persistindo no além 
para além 
do que sou.)
vê como ele vagueia: 
o corpo insiste e sabe.
não há mão que puxe
ou voz que acalme
precipita o passo
precipícios clamam.
para onde marcha, josé?


18/06/2015

fragmentos

1
boca-contra-boca-contra-carne
contra-dente-contra-unhas
corpo-a-corpo-um-a-um
outro-a-outro.

no centro do redemoinho

faço morada. 

2
a noite estrala n'outra ponta da rua:
não é tempo de retornos.
um cigarro após o outro e velhas doses
para distrair as feras.

qualquer lar me espera?
ando ultimamente a atinar sozinho
passo frouxo, solto por aí
talvez seja sinal de desvario -
é bom não duvidar. 

conhecidos dizem 
que sempre me vêem nos mesmos cantos
circulando sem destino algum.
não sabem é que
carrego comigo
questões ancestrais
sempre a ponderar
que não é tempo de retornos.
e retorno, por si mesmo 
penso que não exista:
tudo repetido é um tanto 
quanto
sempre 
novo.


16/06/2015

esta cidade já não me diz nada


do que te vale vagar sozinho?
cada alameda leva ao mesmo lugar.

as palmeiras cansaram, lamentam indiferentes
o canto não se ouve 
sob o ronco dos motores 
e a fumaça e a pressa 
e os gonzos rompidos
e janelas fechadas 
e portas abertas

e todo dia eu só penso em poder parar
e todo dia eu só penso em querer voltar
e terminar e desistir e persistir e reatar

mas são tantas as pressas que me afobam
todo dia um querer ir além
saturado do sal desse mar
insipidez do vai-e-vem

e todo dia é um querer não ir
tarde demais 
para cruzar muros erguidos
quebrar
feitos tratados
violar
velhos caminhos
se prostrando inamovível
sob cortinas e lençóis. 

num dia habito
n'outro, hospedo.

hoje esta cidade já não me diz nada.
o amor escorre sobre a calçada:
substância-furta-cor. 

13/06/2015

queda livre


a montanha-russa está apontada para o abismo
tudo o que se ouve é o silêncio do meu grito
giro-a-giro voo, extraviado do caminho
todo passo é impasse 
e toda fuga é um vício


08/06/2015

rua ante rua


tudo ultrapassa
braço ante braço
perna ante perna
maço após maço 
nada abarcado
não reatados
laços deixados
ao vácuo do vento
              
becos andados
jamais retornados 
aos nossos pés

noites perdidas
terras baldias
vagar de ninguém 

(eu ouço a cidade a julgar; condena os que um dia seremos)

rua ante rua, clamando à lua
que tudo não cesse assim
e as casas nos olham
seus olhos amuados
e os céus subjugam
não posso abraçá-los
pois tudo ultrapassa
e braço ante perna
perna após braço
maço ante perna
 braço após maço 
após perna
ante maço

06/06/2015

rascunho sobre c.


(se a presença inibe e a ausência enerva, o que nos resta?)

eles dizem que há de se aprender
a cruzar travessias
e resistir à imersão
mas é outro dia e os olhos pulsam
oceanos continuam a me impelir:
há tanto a se ter e viver
e nada persiste em mim.
eu, que me arremesso inconstante
aos comodismos da solidão
e cronicamente permaneço
a desejar o calor do outro
em nada atino que me mantenha
ou alivie os desacertos.
que trilha é essa que sigo,
que estrada é essa que vejo?
meus passos insistem vastos
buscando o vago do abismo.
eu, que temo declarações
silenciosamente derramo gritos
clamo cru, escapando do vício
evitando metáforas 
que ocultem o genuíno:
tudo o que quero é ser amado.
sei que haverá de chegar o dia
em que saberei ser e ter
rendendo-me sob as asas
dos que me querem bem.
será a hora em que 
todo desvario silenciará
e correntes fechadas
amarras trançadas
se desfarão em fumaça 
espiralando no rumo do mar.

para o infortúnio dos que insistem 
em seguir o pé selvagem
que jamais satisfaz-se
com destino algum
o instante em que tudo cessa
não se sabe
qual será.
sim, haverá de chegar a hora
não nestes braços
não nestes lábios
não na beleza dos momentos
que agora me são oferecidos.
nada há de certo 
nos rumos que sigo
nos amores que encontro
nos corpos em que habito.

viver sempre foi um progressivo desatino.

30/05/2015

terranatal


de tantas lonjuras virá me resgatar?
a areia revolve os pés
sinuoso me visto de juncos 
porque do rio emergi como das sombras
peixe preso agonizante no anzol
arremessado à margem errante 
e movediça. 
meu coração agora
é todo doença de saudades
o corpo padece nostálgico
sobre as calçadas pedregosas
da terra que não é minha.
depois de morto, desejo
que o mar me devolva aos entes
à nascente que jorra de alturas tantas
onde serei lodo entre rochas.
forasteiramente, me entrego às resistências
finco as unhas, apreendo parte minha
que de lá ainda pulsa
sem deixar escapar.
se as raízes forem arrancadas 
de nossas turvas águas negras
e eu por inteiro me entregar 
aos caprichos desse mar
algum dia virá me resgatar?
são tantas as ternuras que me desgastam 
há de se saber sobreviver sem elas
tentar-me ser além do que tenho -
jacinta de asas cortadas.
traço retornos no papel em branco
algum dia as águas se abrirão de novo?
pois jamais consigo voltar
a passagem se fecha ao toque
tal qual mimosa pudica
rumos dão voltas sobre si mesmos
trazendo-me ao ponto de partida.

terra natal, quando abandonada, nos esconjura.

garganta abaixo


[ele quer usurpar o que há de recente em mim. com os lábios escuros, me explora; com as mãos cruéis tateando meu corpo - carne nova, trêmula - eu todo arredio querendo retorno. não há prazer no jeito que me envolve com os braços curtos - pássaro fora do ninho; mãos forasteiras. sou todo resistências quando peço perdão, boca molhada pagando penitências. esse gosto é o gosto que a morte tem, o gosto do fim da linha, sabor salobro de ruína. ele: 50 anos perdidos nesses olhos velhos de pássaro, nesse corpo arremessado contra a correnteza do desgaste - deixe, meu bem, deixe; de nada vale tanto grito contra o inevitável: o cheiro da devastação perdura sob qualquer perfume. tudo agrava. um dia, nem forças para sustentar o que há de indomesticável em mim ele terá. eu, que rechaço mediocridades, deixo que ele me tenha. ele que nada possui a ser usurpado. galho seco dançando com o vento, solitário. ainda que nada sobre, deixo que pouco a pouco me destroce, dia após dia, incansavelmente esvaziado. tenho gosto por tudo que me aproxima do fim. envolvido pela cauda do diabo, boca aberta clamando, excitado - ele está me revolvendo, enlaçando, se enfiando e devorando, escorrendo garganta abaixo.]


18/05/2015

limbo


hoje tudo é silêncio
nada renasce.
face a face com o que sobrou
e foi evitado:
sem fuga.
o corpo inteiro dormente
sob cinérea mortalha:
não há pulsão para avanço.

é insidioso o desejo de não mais sair daqui.

lá fora há muito 
hoje, nada que me caiba.
as tropas continuam sem mim
as nuvens, os ônibus, os pássaros
os outros e seus anseios.

aguarda-se um novo amanhecer que ameaça não vir. 

16/05/2015

más siderações


atinando em avenidas rutilantes
agonizo febril sob o sol de Maio:
de um lado, chacais sob a carne
desejo e impossibilidade
demônios que escalam
dos tornozelos ao escalpo
e violentamente exigem seu lugar
do outro,  rostos impassíveis
evanescendo por trás 
das janelas dos ônibus
sabendo-se pouco, pois a pressa é toda
e sabendo-me todo ruínas 
através destas calçadas intermináveis.
a garganta ardendo arranha e agride 
a tosse quer expulsar os vícios
que me envolvem e dilaceram
como afiadas unhas
dançando nas entranhas.
mas não, meu bem
não há solução
nos livros poemas ensaios
no tempo que aqui se perde
e jamais é retornado
não há solução para os que
desde o início
tem a marca braseante
dos errantes
na carne.

o que me sobra é carregar 

este fardo como troféu
erguendo-o sob a luz escaldante 
do meio-dia.
já não enxergarei fatalidade
em breves desvarios, não:
eles dizem que é tudo questão de tempo.

06/05/2015

correnteza


disso estou farto:
rotineiramente entregue
ao encalço
que sigo sem saber por que.

guiado sabe-se lá
para onde
flertando com
o não-saber:
o fim quem sabe seja
o que supostamente
eu deva ser. 


11/04/2015

16:27


não há ordem diante dos desejos
que me envolvem e escravizam.
essas urgências, eu te digo, algum dia
destruirão completamente
tudo o que me cerca e me mantém
da completude de um caos.


10/04/2015

Interlúdio III


as coisas já ditas
voltam a ser ditas
de novas formas.
as coisas não-ditas
são ditas
e ditas se tornam
coisas há muito
já ditas.

o que se há de fazer?


15/03/2015

poema fronteiriço


recue enquanto é tempo
à pátria-mãe que te chama
dê estes braços fervorosos
aos que ainda te clamam
guarde a vivacidade que resta
aos que a buscam
pois aqui, uma vez ultrapassada a linha
jamais se encontra retorno.

para além do limiar que tuas mãos forçam
apocalípticas vozes consomem o ar
carcaças de azarados exploradores
enfeitam as varandas queimadas
um crocitar premedita maus agouros.

na terra prometida
as palavras bonitas
são ilusões que te sugam
ao vazio. 


12/03/2015

corpo fechado


nada resta de mim
diante dos braços
que me envolvem lassos
ou sob os olhos
que me enlaçam ternos 
e procuram gastos 
o ardor sincero 
dentro em mim.

essas mãos exploram
meu corpo fechado
buscam tontas
num langor de atos
resquícios deixados
do que sobra de mim.

saliva salgada nas faces
língua úmida percorre esta carne
num desespero sem fim
e caça amuada, atormentada 
dançando em terra caiada
as evidências de que algum dia
eu me movi de dentro de mim.

10/03/2015

desde então


essas esquinas abrigam meu corpo fechado
dia após dia, o rumo fadado
de um destino traçado sobre desatinos.
eu bicho acuado desde então
fremindo sob simplicidades
buscando fatalidades
que me brutalizem
a carne 
fugaz e dormente. 
nada acho:
desde então, não há lugar para mim.
o que tive, tive
entre as palmas já não cabe
um outro igual.
cada instante vivido desde então é tentativa
cada palavra, uma fuga
todo corpo uma busca
pelo encaixe do teu.


01/03/2015

transcenda


através dos dias
é preciso escorrer
e jamais ultrapassá-los.

desatentar-se
do compasso das horas
serpenteando 
no entorno do círculo
que traiçoeiramente
contorna os passos.


18/02/2015

enfado tropical



I
as mariposas jazem nas paredes
cruelíssimas e suntuosas.

não há ventania que as arraste da indiferença.

II
as palmeiras caminham ao cair da noite.
movem-se sutis, docilmente traiçoeiras
arrastando grotescas raízes sob a terra.

entre si sussurram verdades sacrílegas
preciosíssimos mistérios deste mundo e do outro.
(para ouvi-las, meu bem
é necessário não olhá-las)

III
na areia há carcaça de bicho ancestral
garrafas soterradas pela metade
espuma seca
arraia podre, tripa de peixe:
carcará revoa baixo, silencioso
planando soturno.

pensei ter visto teu rosto dentro de uma concha.

IV
algum dia o mar arrastará nossos corpos
belos e multicoloridos
vestidos de algas e corais:
olhos abertos, lábios salobros, pele de cetim.

a terra será nossa até que a maré encha
e nos devolva à grandeza.

V
tempo, tempo:
as ondas rufam, o vento sibila.
levantar uma oração a quem?
aqui é terra de ninguém. 
maresia corrói rezas:
não há deus que por mim vigie ou a mim ouça.

VI
as libélulas jazem mortas nos copos d'água
nos canteiros do jardim
nos telhados desbotados.
não há rufo do mar, silvo do vento.

o silêncio a tudo consome como doença.

VII
até quando durará a espera?
paredes desabaram, cores descascaram.
maresia devora minha carne.

há beleza nesse azul, nesse sol, nesse sal.

VIII
lembre-se de mim:
serei a areia que fustiga tua pele.
o mar que te puxa e revolve
a voz que dança com o vento.

serei a inefável grandeza
que consome, afaga 
e destrói.

procure-me dentro das conchas
perdido entre as algas que pousam na areia.

15/02/2015

confessional


extirpe a métrica
trucide as suavidades
quero me ser 
para além de rimas 
e formalidades.




13/02/2015

o que sou

"Please release
This pressure off me"
Björk - Vertebrae by Vertebrae

escorre das frestas, dos olhos, da boca
escorro no chão, feito tinta misturo-me. 
eu chamo, eu induzo, eu quero, eu desejo.
inquietas loucuras na ponta da língua trauteiam.

entredentes
:tremendo tremendo tremendo:
lembrança que envolve
daninha consome:
agonizo.

:suando suando suando:
mordendo arranhando 
tossindo atinando
querendo outra vez.
camisa-de-força, seringa
faca na boca lasciva.

mais se escapa

e mais se está
sob os pés
o abismo.

:fugindo fugindo fugindo:
eu quero estar lá
eu quero voltar
meu corpo treme
sublimando-se pulsa
latejando 
roxo
clamando 
alforria e nem 
os silêncios
nem os escuros
nem as cortinas:
paliativo não há.

:voltar voltar voltar:
um ofego uma fuga
um afago uma surra:

teu toque rompeu a represa
violou as fronteiras
libertou a besta
e mundo afora
feral me entrego: 
sem fuga, placebo
sem culpas, sem pejo
livre de martírios
cheio de desejos.


10/02/2015

hannibal ante portas


diga-me o nome daquele
que sei cá estar quando não o vejo
que sei-me ser quando não me tenho
que perdura para além do que se sabe

formem-lhe o rosto diante de mim 
penumbra, fumaça e espelhos:
quem é ele que me acorrenta os braços
bamboleia as pernas e amordaça a voz?

nessas ruas que ando
o sinto.
assassino espreitando no escuro.
o ouço seguindo
extensão do caminho
terceiro passo ecoando.

dê-me retrato falado:
seus nomes, suas cores, seus traços. 
descubra-o da negra cortina
que cobre seus atos.

clamo:
diga-me que há muito cá ele já não está
e o que me persegue é tremulante sombra
daquele que um dia
por aqui
nunca esteve.

08/02/2015

rascunho sobre d.


pensei ter visto teu rosto 
empoleirado na janela
ouvido tua voz sob a bossa-nova 
de 60
sentido os teus cheiros nas gavetas velhas
espreitado tua sombra através dos arabescos.
o toque acidental de um estranho na rua
me pôs a pensar que agora já faz um tempo
e que tempo feito é tal qual tempo perdido.
nas ruas avenidas janelas alamedas
vez ou outra eu ainda te caço
temendo, de coração rijo e engaiolado
te encontrar nas folhas das palmeiras
nas xícaras de café
no virar de cada esquina 
ou nos ônibus lotados.
se qualquer dia desses eu te acho
seguirei meu caminho, inviolável
e continuarei a procurar
nos riscos paredes e traços
sabendo que só nas procuras
quero te encontrar de novo.


03/02/2015

o que somos


se antes houvesse de ti subtraído
todas as palavras bonitas
atos de polidez
e farsantes monólogos
sobraria carcaça seca 
exposta ao sol
fino verme avariado 
sob corpo moreno
e delgado.

retirassem de mim 
o que tenho:
versos, papel e caneta
pele e tripas restariam
um vazio em carne viva
a pulsar
no meio do crânio.

eu sou como você:
mediocridade 
dos pés à cabeça
e por isso 
já não nos servimos
mais.

deixemos, então, de discursos
e rasos poemas. 


02/02/2015

rascunho sobre f.



sento-me para escrever sobre f.
e o que há para se dizer sobre
f. que já não tenha sido dito
ou que esteja constantemente
a se dizer e portanto já se é
sabido?

Marca de batom rosa no copo de café, roupa florida jogada no chão, cheiro de lavanda na borda do pano de mesa - ela está sempre a deixar para trás uma evidência de que aqui esteve, como se temesse ser arrastada para o vão das coisas esquecidas, descendo num espiral de ausências irresgatáveis. F. não sabemos se é prosa ou

poesia
com toda a sua vermelhidão e pele morena acanelada 
cabelos que agora louros já foram
castanhos e arruivados
olhos de um negro maciço que ninguém
ousaria dizer já terem sido de profundo verde
lodoso como as águas daquele rio
em que um dia quase se afogou
mas essa é história para outra 
ocasião.


f. está sempre a falar com incrível rapidez como se temesse a quietude pois a quietude diz nos impele a pensar e o pensar sobre o que não deve ser pensado envenena a alma e fala com tal urgência como se o tempo estivesse constantemente a lhe escorrer pelas mãos largas de ampulheta tal qual areia encerrada entre os dedos conta aos estranhos nas ruas sobre sua vida e suas dores tentando expressar com a verborragia o indizível e traiçoeiro vazio que espreita sob as costelas e ameaça criar forma romper vir ao mundo rastejar para fora de si na forma de um grito que estraçalharia suas cordas vocais o que f. não sabe é que vindas ao mundo as palavras tornam-se outras e traiçoeiramente se enveredam por outros caminhos criam outras verdades que por sorte não são menos genuínas do que a verdade que se quer entregar

- Sim, doutor, há uma dor aqui, aqui, aqui.
- Eu lamento, senhora, informar-lhe que para isso não há ainda medicina exata.

enquanto não, pílula atrás de pílula, copo atrás de copo: remédio pra curar o efeito colateral do remédio que curou a dor primeira. não sei o que será de mim depois de tanto. diabos!

(sai, f., vê se me deixa quieto com os meus demônios, enlaçado em meus vícios e silêncios. sei que teus olhos estão sempre a querer me salvar, retirar-me desse limbo em que me fecho, mas eu, como você, sou alma perdida. reside, entre nós, singular diferença: abarco a minha sina).

f. entretanto jamais perderá
a esperança de um novo renascer
dia após dia aos céus levantará
uma prece
pois crê 
em verdades providenciais.
graças a deus: ao menos um de nós 
ainda tem algo que lhes reste.


(Ande, dividiremos uma cerveja, nos cegaremos às efemeridades. Algum dia, quem sabe, nos fique uma esperança, rebarba qualquer, e nos abraçaremos sem dizer palavra, pois, no fim das contas, somos sempre nós dois a sobrar).


25/01/2015

feral


eu tenho o cheiro do suor
do gozo
da saliva dos loucos

tenho o corpo
marcado de terra
pés calejados de fogo

carrego comigo
louvores e dores
de putas e anjos

sou fera
sou santo

clamo os nomes de deus
sigo os caprichos do diabo

sou solto no mundo
sem forma e sem cor 
querubim d'outros céus 
extraviado

não me arranque de meus descaminhos
não remova os meus desatinos:
eu sei que no fim
os rumos que sigo
são linhas certas
escritas
 por passos tortos.


22/01/2015

amicitia


a língua ferina, afiada, nociva
atravessa a ferida
e toca o osso:
um grito cortado escorrega
por trás dos molares.
estamos unidos 
atados por laços frágeis
pés cautelosos
dançando 
em piso caiado.

enfeito indiferenças
com palavras polidas
e clamo aos céus 
afeto que permita
tragar-te aos poucos 
dia após dia.


a substância dos dias



[pastosa escuridão: manhã. um som rompante - 5:30 - f. ainda está dormindo. levanto-me lento, silencioso, chão frio na rija sola dos pés, o osso sacolejando possuído. corpo quente, jato gelado, luz atravessa pupilas dormentes: cá estou, coisa amorfa, tudo em suspensão. os móveis ainda não acordaram, permanecem imersos em seu silêncio imaterial, olhos fechados, como estão sempre fechados os olhos das coisas, compensando as orelhas atentas - sempre. as paredes têm ouvidos: dito certo. estômago retorcido, ruidoso: vazio. rumo refeito dia após dia é roupa desbotada pelo constante uso. perde-se a sensibilidade dos detalhes, nada de novo se percebe nesse caminhar. ônibus. o constante vai-e-vem. momento de atentar. lá fora tudo continua como sempre foi, apesar de. o meu consolo é a indiferença do mundo, de ser parte de um todo - terrível seria se cada um se apercebesse das minhas dores; horrível, sim, se não fôssemos tão irrevogavelmente egoístas. eu gosto do egoísmo. eu gosto dos pequenos mal-estares que nos mantém tão vivos. destino alcançado. caos matutino. as coisas já são coisas a uma hora dessas. f. com certeza já acordou, deve estar até saindo de casa, deixando para trás como evidência a marca de batom rosa na borda do copo de café. sabe-se lá quantas horas até a hora chegar novamente. chego todo ausente, saio cheio de mim e de tantos. café e menta na boca. cigarro impregnado na carne. as salivas e os cheiros. este dia é feito da mesma substância do que virá e do que já se foi: estamos vivendo esse instante desde sempre, concomitantemente.] 




à beira da carne


ela me vem no silêncio
fria e artimanhosa 
escalando o corpo 
com sutileza de aranha
quando de si me apercebo
já é tarde:
escravizado faço-me 
às bestiais vontades
que sucumbem à beira
da carne. 

ela me vem sem aviso
nociva e traiçoeira
alastrando-se
como veneno.
toque qualquer ou palavra
pode vir a despertá-la:
coleira ou correia não há
que possa domesticá-la.

[submisso lacaio
de orelhas baixas:
dessa sina não vou escapar]

que culpa levo 
se desse corpo não posso livrá-la
se nesse corpo não posso contê-la?
sobre mim, escorre
para o mundo expelida, rasteja
mas há sempre de a mim retornar.